24 janeiro 2013

Sobre Cigarrilhas e Corações Ateus



Viveu toda uma vida tiranizada por um homem. Submetida aos seus desgostos e contratempos, aos seus caprichos, aos seus desejos quase que profanos. Acalentada por uma força estranha, que nunca deixou sua pobre luz apagar-se, continuava tateando algum caminho para seguir no meio daquela triste vida que escolhera para si. O seu coração tornou-se ateu.

Nem sempre fora assim. Quando jovem os seus cabelos negros, formavam grandes cachos rebeldes que emolduravam seu rosto e simbolizavam um pouco de sua alma. Era livre. Livre eram suas ideias e ideais, livres eram seus passos, livre era o seu coração. Os grossos cabelos, sempre soltos, andavam pela cidade criando para si falsos amores de pobres coitados. Não pensava em se casar. Fumava cigarrilhas de palha escondido da sua severa mãe, nos intervalos do trabalho na fábrica de tecidos. Cantava nas festas de reinado e nas procissões. Gostava de dançar suas valsinhas. Economizava meses para comprar lindos vestidinhos que usava para ir à missa e aos bailes da pequena cidade do interior.

Nunca soube porque escolhera aquele homem para  se casar. Nunca conseguira entender o porquê daquele desejo descabido de contrair matrimônio. Talvez por força de um relógio biológico imaginário, que observava todas as irmãs, primas e amigas se casando e tendo seus filhos, enquanto ela, acompanhada da cigarrilha e ao pé da radiola embalando velhas canções, continuava solteira.

Um belo dia, quando na soleira de sua casa, o viu passar. Rapaz alto, não muito bonito. Andar descompassado, chapéu puído. Seus olhares se cruzaram. Pensou que o amava. Ele julgava que ela haveria de ser uma boa mãe para os seus filhos. Com a benção da família se casaram. Eu olho agora a antiga fotografia do casamento. Os seus negros cabelos estavam presos em um alto coque, adornado por um véu rendado.

O fato é que nunca, nem por um segundo, se amaram. Tinham sim, um sentimento formado por setenta anos de convivência quase que forçada. Mas não era amor. Sabiam disso. Ele sabia quando, nas noites de sexta-feira, encontrava abrigo no ventre de outras mulheres. Ela também sabia que não era amor quando dava à luz mais um filho - dos tantos- que tiveram juntos, quando lavava e estendia ao sol a roupa daquele estranho que dormia ao seu lado, quando lhe servia o jantar, quando na escuridão do quarto ele lhe dava beijo ocos - e raros - antes de penetrá-la com tédio e frieza.  

Viveu por setenta anos ao seu lado. Tiveram 8 filhos. Construíram uma boa casa. Assim que casou ela parou de trabalhar. Largou as cigarrilhas -  hábito que ele abominava. Parou de dançar. Não mais cantava.  Os vestidinhos da época de solteira acumulavam pó e saudade dentro do armário. Os cabelos sempre presos em um gordo coque, escondidos por um lenço de feltro velho. Suas ideias sobre a vida transformaram-se no mais puro reflexo daquele homem. Tudo o que ele pensava ela concordava sem pestanejar. Ela o seguiu por setenta anos. Até que a morte, densa e generosa, o levou desta vida.

Foi quando seus negros olhos, quase cegos pela idade, contemplaram o céu. Era como se sua vida não tivesse mais propósito algum. Os filhos já estavam todos criados. A ampla casa que com tanto esforço haviam construído, agora parecia ( e estava ) vazia. Sentou-se no sofá, ainda com as negras roupas com as quais havia ido ao enterro do homem com quem viveu toda uma vida. Passou as mãos em seu próprio rosto. Não havia lágrimas ou algum resquício de que elas estiveram ali em algum momento.

Foi então que chegou , mansa e serena, uma sensação de alívio. Quase assustadora a princípio, é bem verdade. Mas a sua alma foi deixando-se cobrir por aquela impressão tão nova e desconhecida. Com as mãozinhas enrugadas procurou no vestido o zíper lateral. Puxou-o delicadamente para baixo. Despiu-se por completo, deixando suas vestes no sofá. Foi para o quarto, completamente nua. O corpo branco e senil parecia flutuar pela casa acarpetada. Abriu o seu armário e procurou pelo vestido mais colorido que seus olhos pudessem encontrar. Um vibrante vestido floral com botões de madrepérola estava esquecido no fundo do armário. Se vestiu com ele sem pensar muito. Soltou os cabelos, agora prateados. Eles caíram lentamente em seus ombros. Calçou seus chinelinhos. Pegou sua bolsa e saiu. Queria ver se encontrava para comprar cigarrilhas no armazém da esquina.