23 novembro 2009

Bobos


O dia estava quente, abafado. Passava do meio dia, o sol lá do alto parecia olhá-los por entre as poucas nuvens brancas. Sentados na grama, eles conversavam sobre qualquer coisa. Falavam sem parar, jogando as palavras entre os dentes, deixando que saíssem atrapalhadas por entre a língua e o céu da boca. Um vapor quente vindo do asfalto os encobria. Ambos submersos na angustia de um primeiro encontro. De repente um macio silêncio lhes cobriu a boca. Calados. Ele olhando para baixo, ela olhando para cima. A grama muito verde. A bola de fogo vestida de branco.


Ansioso, ele arrancava pequenas folhas de grama. Ansiosa, ela havia fechado os olhos, mas continuava a olhar para cima. Era hora do almoço, não tinha comido nada. E quando as palavras se esconderam, ele sentiu gosto de fome em sua boca. Teve então medo de beijá-la, enquanto um turbilhão de sentimentos veio lhe tomando a mente. E se ela fosse apenas sua amiga? E se não gostasse do seu beijo, do seu jeito, dos seus sabores? Que bobo que era!


Ele gostava de cães, ela de gatos. Ele gostava de matemática, ela de português. Ele lia Aluisío Azevedo, ela os poemas de Drummond e Vinicius. Ele ouvia rock nacional, ela Chico. Isso deveria ser sinal de que algo não daria certo. Abriu os olhos. Ele estava a arrancar folhas de grama, parecia procurar algo. Será que procurava flor? Que boba que era!


Ele olhou a grama em suas mãos, olhou os livros espalhados pelo chão, olhou o rosto dela. Seus olhos fechados pela claridade, a boca aberta, as mãos tocando o chão, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Olhou o céu, as nuvens, olhou os carros. Decidiu. Levantou. Bem eu tenho que ir, nos falamos qualquer hora. Ela se levantou sem dizer nada. O puxou pelas mãos e o fez sentar novamente. Fechou os olhos. A boca tremula esperando por um beijo. Que bobos que eram!