11 novembro 2010

Você NÃO é uma princesa



Mulher cresce mesmo com aquela ideia fixa de príncipe encantado. Não adianta. A cada dia eu me convenço mais de que contos de fadas só servem para nos tornar ainda mais iludidas com relação ao amor. Sim mais, pois quem é mulher sabe: já temos uma predisposição a crer que o carinha que conhecemos ontem a noite é O Homem das Nossas Vidas.

O ideal de perfeição varia muito: para algumas mulheres homem perfeito é aquele que simplesmente a aceite da forma como ela é, sem reclamações injustas ao tempo que ela gasta indo ao cabeleireiro, ou por sua barbeiragem no trânsito. Para outras - as mais sonhadoras e românticas - é o homem que vem para modificar a sua vida, para transformar água em vinho, óleo em vinagre, o sertão em mar. Príncipe encantado: montado em um cavalo branco, traje a rigor, cabelos ao vento. Ele fala: "Venha, suba em meu cavalo, minha linda donzela". Ela sobe, se agarra ao príncipe bonitão e eles são felizes para sempre (Ok, essa idealização possui algumas variações. Uma amiga minha imagina tudo como descrito acima, mas o carinha, ao invés do traje a rigor, veste uma jaqueta de couro e capacete reluzente, enquanto no lugar do cavalo branco porta uma moto envenenada).

Não importa. Queremos o ideal. Mesmo que nós mesmas não sejamos perfeitas. É então que a historinha acaba e você cai do cavalo (ou da moto). Porque é óbvio, não existe a perfeição. Única e exclusivamente porque é nosso, é da nossa natureza: ser imperfeito. Quem pensa, quem é de verdade e não tem medo de ser, sabe do que eu falo. Hoje você pode desejar ter um marido, uma família linda, um cachorro e uma casa na praia como naquela "comédia romântica" idiota que você assistiu tempos atrás devorando um pote de sorvete. E amanhã você pode, muito bem, escolher viajar o mundo, escrever um livro em algum lugar distante e adotar um filho, como mãe solteira. Por que não? Eu sou assim, você leitora, é assim e com certeza o cara perfeito pra você também é. E convenhamos, mudar de ideia sempre e tão drasticamente não chega nem perto da perfeição mencionada nos contos de fadas, onde a princesa trancafiada em uma torre, espera durante anos e anos a chegada do seu amado. Mudamos com frequência, somos metamorfoses ambulantes como diria Raul.

Agora, pense bem, será que não se trata disso a tão falada perfeição? Não será ser perfeito, ser exatamente da forma que você é, sem medo, culpa ou privações? Será que aquele cara do seu trabalho, aquele que usa óculos e arrasta um avião por você, não é o homem da sua vida? Por que não? Ou sei lá, aquele do seu cursinho de inglês, o caladão, que gosta praticamente de tudo o que você gosta, dos mesmos livros, das mesmas canções estranhas e do mesmo seriado. Porque não? A perfeição exige em troca a mais perfeita perfeição. Você não é uma princesa. Pare de procurar por príncipes encantados!


***

Nota: Esse post é dedicado à uma amiga, que de tanto procurar príncipes encantados, têm uma coleção enorme de amores platônicos.

E o post só poderia ter uma trilha sonora: ♪ Raul Seixas - Metarmofose Ambulante ♫

♪♫ "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Eu quero dizer, agora o oposto do que eu disse antes. Eu prefiro ser essa metarmofose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo, sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou. Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou, se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor, lhe tenho horror, lhe faço amor eu SOU um ator." ♫♪


01 novembro 2010

Do latim, Liber.

Restituia-se aos poucos. O fato era que ainda não sabia ser sozinha. Era como se, depois de anos de companhia, ela simplesmente não existisse sozinha. Precisava realmente o ser, mas o que lhe era ser? Quem era ela no final do cálculo matemático? Convencia-se cada dia mais que um dos maiores problemas em estar todo o tempo acompanhada, era não saber estar sozinha. Não dar valor a solidão. E solidão tem lá suas qualidades, sabia disso. Queria crer na possibilidade de erguer seus olhos e seguir. Apenas um par de passos na areia. O que desejava ainda não possuía nome. Era mais que liberdade: era voar sem destino, era ter consciência do que tinha sido e do que era. Ter pleno conhecimento de si, autoconsciência de sua alma e de seus desejos mais profundos. Uma urgência dominava-lhe a alma. Precisava de liberdade, sim de liberdade.

Era composta por anseios, por urgências que vinham sempre fora de hora. E, naquele momento, ansiava por solidão, por liberdade, por frases sem nexo. Queria que uma vez em seu vida, nada fizesse sentido, queria acreditar que bastava colocar algumas roupas na mochila e seguir viagem. Tudo aquilo era passível de tocar? De fazer sentido? Desejava bastar-se, sim, satisfazer-se apenas consigo. Afinal, parava e refletia, somos assim, sozinhos. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos. Era mais que necessário saber estar só. Ancorava seus pensamentos a um ponto de partida e um ponto de chegada. Traçava mil planos no ar, enquanto desenhava as curvas sinuosas de um vôo livre e libertador.

27 outubro 2010

Recortes

[...] Deus me deu olhos que enxergam demais. Enxergam além do que muitas pessoas conseguem ou querem enxergar. Talvez esta seja a razão do meu fechamento para o público. Costumo desconfiar do impossível, exagerar na intensidade das ações. Definitivamente eu não sou pública, não sou algo do tipo aberto à exposição, sou fechada, discreta, muitas vezes, ambígua. Na minha vida tudo é construído de forma lenta e gradual. Mas costumo amar demais e com intensidade tamanha, que algumas pessoas costumam se assustar. Tenho dentro de mim um farol praieiro, daqueles que iluminam tudo a sua volta. E ele sim, é afeito de grandes manifestações, das grandes e intensas paixões. Ele envia sinais grandiosos as pessoas que me cativam, e esses sinais costumam cegar: a mim e aos outros. Ta aí um defeito constante: exigir amor e sinceridade demais, exigir talvez, quem sabe, uma farol praieiro no coração de algumas pessoas que não possuem nem uma lampadinha acesa dentro de si.

***

[...] Eu costumo ser uma pessoa intensa demais. Em tudo. Procuro há anos um equilíbrio que não vem de forma alguma. Sou exigente com tudo que orbita em torno de mim, que está de alguma forma ao meu redor. Sou exigente comigo e com os outros. Não procuro a aprovação de ninguém, pois já sofri muito por esperar algo que não vinha nunca. Jogo limpo sempre. Sinceridade é essencial para mim. Tenho a alma livre e complexa. Sou de certa forma, complexa. Inteiramente ambígua, quem sabe seja essa a definição correta. E, tendo eu esta maneira limpa de ver o mundo, muitas vezes exijo que as pessoas enxerguem tudo da mesma forma que eu. Mas isso não é possível. Não é possível porque, simplesmente, ninguém é uma extensão de mim, não é e nem deveria ser. Sei, acredito e confio que cada pessoa é um ser único, um universo complexo, uma dimensão paralela. Difícil é por esse conhecimento em prática.

***

[...] Tenho andado perdida de você. Nossos caminhos não parecem mais se cruzar. Isso provoca angústia e alívio, pois às vezes, confesso, procurava fugir do tamanho desse amor. Ele era tão grande que costumava doer. Agora provoca topor, amargor, ânsia... O que está presente em mim é o medo da entrega. Então agarro-me a uma bóia qualquer para não submergir, para não me afogar dentro de você. Seu mar é tão denso e profundo quanto o meu. Devo mergulhar? Devo me afogar? Tudo em você é tão real e ao mesmo tempo tão frágil. O que é isso que carrego dentro de mim? Será que devo acreditar?



20 setembro 2010

"À espera dos olhos líquidos" ou "Para quando você encontrar o grande amor da sua vida"


Pode chegar. Eu estou aguardando você. Chegue assim, como quem nada quer, como quem nada planeja. Não me traga nada, não espere nada. Apenas venha com a alma aberta, com o coração livre. Só tenha aquele desejo por algo mais, aquele brilho no olhar. Olhe-me sempre. Olhe dentro de mim, descubra, mergulhe, conheça, desbrave. Eu sou um universo desconhecido, porém habitável. Aqui tem água potável, pode beber. Tenha olhos que enxergam verdadeiramente. Me entende? Aqueles olhos enormes, líquidos, que transbordam verdade, que derretem qualquer olhar distraído que se aventure a cruzar com eles. Me encante. Me cative. Tenha vontades e decida por si só. Acorde num domingo de manhã e decida conhecer Fernando de Noronha, ou sei lá, qualquer outro lugar.

Chegue, chegue mais. Eu não mordo não. Me conte um pouco mais sobre você. Sofreu de amor? Ah, não faz mal. Sou especialista em curar almas em frangalhos. Quer conhecer o mundo? Será que aceita acompanhante? Dê tempo ao tempo e em breve estaremos prontos. E então, finalmente, você poderá me buscar, onde quer que eu esteja. Na índia, em Bali ou no Japão. Eu estarei pronta para você, cativa de seus olhos líquidos. Você vai chegar, e vai ter aquela voz indescritível, aquele cheiro que arrebata, aquela cor que hipnotiza. Vai chegar assim de repente e irá me pegar pelas mãos (desejando mesmo me carregar em seu braços), vai me olhar e então eu vou entender: fomos feitos um para o outro. E você vai me complementar, jamais suplementar. Vai me fazer mais corajosa e mais audaciosa, pois ao seu lado eu serei capaz de tudo. E juntos não teremos medo dos caminhos obscuros, nem das quedas livres. Nos seus braços poderei desaparecer, pois de certo, já não importa o mundo e as pessoas que nele habitam. A mim bastará você, e a você bastará a mim. Pronto?

28 agosto 2010

A Liberdade e os Cavalos

Quando eu era pequenina, me lembro de certa vez, ter ido à uma fazenda no interior de Minas Gerais. Minha família paterna é toda de lá, mas eu, como menina de cidade, nascida e criada no coração de São Paulo, não conhecia sequer aquele cheirinho de mato verde, de terra molhada, quanto mais os animais. Na verdade, eu conhecia sim, mas convenhamos, existe uma grande diferença entre os ver através das grades de um Parque Zoológico e os ver de pertinho, podendo tocá-los, senti-los, os observar e os tornar verdadeiramente reais em nossa memória. Acredito que tenha sido exatamente essa proximidade que criou um dos meus maiores laços, uma das minhas maiores paixões, aquela que ainda hoje, prevalece comigo.

Eu tinha então meus 5 ou 6 anos e um pavor absurdo de qualquer tipo de animal, incluindo gatos e insetos. Depois do almoço, meu pai me levou para conhecer a fazenda. Observamos as vacas e os bois pastarem por um longo período. Conhecemos o galinheiro e suas galinhas, que pertenciam a um irritado e desconfiado galo. Meus olhos brilharam ao ver o majestoso peru e suas lindas penas. Andamos pelo pomar, comemos algumas jabuticabas... Foi então que eu o vi. Era impossível não vê-lo. Um pouco afastado, próximo à uma grande mangueira, lá estava ele. Meu coração de criança batia, estúpido e gelado, uma ânsia me dominava por completo. O que era aquele lindo animal? Grande, majestoso, delicado, sua musculatura parecia ser desenhado por algum grande desenhista. Suas pequenas e finas patas pareciam não pertencer à aquele grande corpo. Sua crina, lisa e comprida, adornava toda aquela beleza delicada. Perguntei então o que era, e fui informada que era um cavalo. Sim eu conhecia cavalos, mas aquele não se parecia com nenhum dos que eu havia visto na televisão e nos livros infantis. Então, meu pai disse para nos afastarmos, pois aquele era um Cavalo sem doma. Perplexa, insisti naquele assunto durante semanas. Sem doma? Por que domar um animal daqueles? Que o deixassem livre, ele não era feito para aquilo?

Lembro-me de seus enormes olhos, que me olhavam frios, inertes. Ele me via e eu enxergava através deles. Foi nesse dia que minha paixão por esses animais começou, sua calma selvagem me arrebatou, mas acima de tudo, sua inquestionável liberdade. Soube mais tarde de Cavalos Selvagens, raças que viviam na Europa e Ásia e me identifiquei ainda mais com o bicho. Deus, pode haver algum animal mais parecido comigo? Confesso que nunca me atrevi a montar um. Minha paixão se limita a admiração e, na minha opinião, a liberdade extremamente pura e natural desses bichos deve ser respeitada.

Falando nessas memórias, outras me vieram a mente, como a de que certa vez, na escola, fomos orientados a desenhar o animal que gostaríamos ser. Entre os meninos a professora pode observar grandes dragões, poderosos leões. Já entre as meninas, coloridas borboletas, pássaros de todas as cores. Quando chegou minha vez mostrei meu cavalinho marrom, rabiscado desajeitadamente pelas mãos da criança que eu era (e quem sabe? Ainda sou). Minha professora indagou: - Um Cavalo? Que diferente, por que um Cavalo querida? Respondi sem pestanejar: - Oras, porque sim. Ele é tão lindo e tão livre. Minha opinião ainda hoje é a mesma.

24 agosto 2010

Ela


Riscou o fósforo e acendeu o cigarro canelado. Ele exalava doces notas de baunilha, menta e canela. A fumaça subia pesada, em direção à varanda do quarto. Sentou-se e deixou o cigarro queimando entre os dedos, enquanto olhava-a dormir. Estava ali, deitada entre os lençóis, a causa de todos os questionamentos, de todas as dúvidas, de todo o sofrimento, de toda a felicidade. Seus olhos cerrados possuíam ainda certo ardor, um tom questionador, um mistério que perturbava. Seus cabelos negros jogados no travesseiro branco pareciam transtorná-lo alem do normal. Amava aquela mulher, amava-a mais do que ousara um dia crer amar outra pessoa. Detestava-se muitas vezes por não saber controlar aquilo que lhe dominava a alma, que arrebatava seu corpo, que lhe fazia perder a serenidade, o eixo, a calma, que deturpava sua visão e obrigava-o a enxergar tudo mais belo, mais ingênuo, mais puro. Seus sentimentos. Ela. Ele já não tinha domínio sob seu coração.

Justamente ele, que um dia afirmou não crer na existência do amor. Mas as suas palavras, as suas opiniões, dividiam-se em antes e depois Dela. E aquelas, ditas por um homem cego (ou talvez um homem que enxergasse demais) haviam se transformado em fumaça, poeira. Ali estava o amor, encarnado Naquela pequena criatura, arraigado em sua alma.

Por vezes, odiava-a por quase um minuto, mas depois, sentia subir por sua garganta, frio e lânguido, ele, o perturbador amor. Depois, a amava mais e mais. Mergulhava cada dia mais fundo em uma experiência de prova, doava-se gratuitamente, engolia seu orgulho. Se Perguntava o que, exatamente, diferenciava Aquela mulher de todas as outras que um dia passaram por sua vida. Não sabia responder, sabia apenas que, quando deu por si, estava submerso naquele sentimento que tinha cor de pedra âmbar. Entregava-se conscientemente a algo que lhe consumia dia após dia. Como desejar algo que nunca será seu realmente? Como encarar, frente a frente, aquilo que você fugiu durante toda uma vida, e que um dia pensou não existir? Como aceitar calmamente a resignação de sua alma? Ela pareceu movimentar-se, deu um breve suspiro e abriu os olhos lentamente. Ela o olhou surpresa, sorriu. Seu sorriso era aterrador. Ele sorriu de volta. O cigarro ainda queimava entre seus dedos quando ele se dirigiu, calmamente, em direção à Ela. Esqueceu-se dos questionamentos e voltou a se alimentar daquilo que mais o consumia: Ela.

22 maio 2010

Nua

Cruzou os braços sobre o peito e retirou delicadamente a blusa. Primeiro a cabeça, depois os braços. Seu dorso branco, alvejado por pequenas pintas que lhe cobriam todo o busto, a barriga, os ombros. Depois, a calça jeans azul escuro, as peças íntimas, e por fim as meias. Sentiu na palma dos pés a temperatura absurdamente fria que estava impregnada nos azulejos verde água do banheiro. Estava nua enfim. A pele enrubescida por conta do frio que fazia naqueles meses típicos de inverno, os pelos eriçados eram apenas coadjuvantes de um todo.

Soltou os cabelos que estavam presos e calmamente girou a torneira de água quentíssima. O vapor vindo do chuveiro tomou conta lentamente do espaço, grudando entre os azulejos laterais, cravejados de pequenas florezinhas coloridas, embaçando o espelho no qual ela se olhava, nua. Estava assim, inteira, plena, completa, sem peça alguma que lhe cobrisse o que estava na maioria do tempo coberto, sem nada que, enfim, lhe impedisse de ser o que realmente era. Seu olhar passava vagarosamente por pedaços de seu corpo, as mãos, os braços, as pernas. Pensava estar ali, refletida no espelho, a sua verdadeira imagem. Aquela que poucas pessoas ou quem sabe, nenhuma, conhecia. Ousava crer que, assim como seu corpo nu era desconhecido por outras pessoas, também era desconhecida sua alma, seu profundo universo. Seu pequenino universo, sua enorme alma. Vagarosamente sua imagem foi desaparecendo do espelho, escondida pelo quente e úmido vapor da água. Sim, aquela era ela no mais profundo que se poderia tocar, no mais profundo que alguém poderia chegar. Seu corpo era um universo em órbita e, todos os dias, em todos os momentos, tudo o que mostrava aos outros não era um terço do montante que era. Debruçava-se, escondida pelos grossos muros de suas palavras, por suas roupas, suas mentiras, sua complexa angustia. Protegia-se por máscaras, por adereços, por artifícios. Resguardava por fim, sua essência que julgava pequenina e gigante, reservada para alguns poucos, somente aqueles que poderiam e gostariam entender. Mas, sim, agora lá estava ela, ali estava a sua mais profunda imagem, o seu mais verdadeiro reflexo. Jogou o corpo debaixo do jato de água quente e este respondeu rapidamente, molhando cada parte do seu corpo, cada espaço do seu ser. E, submersa naquelas águas, introspecta em sua alma, devaneou quantas correntezas sem direção, quantos universos espalhados pelo mundo. Universos como seu corpo nu em frente ao espelho, cheio de marcas, feridas, concreto e poeira. Ah, como o seu conhecimento era limitado. Sabia de si e mais nada.


28 março 2010

Conversa de bar


Garçom desce um homem perfeito e põe na conta. Um homem encantador... Cheio de qualidades e também de defeitos, pois é desses que eu gosto mais. A perfeição que eu cito, não é aquela digna dos príncipes encantados, que vem num cavalo branco, com uma espada nas mãos. A perfeição a qual me refiro é a perfeição real, digna de um homem pelo qual eu me apaixonaria, e tem muito mais a ver com atitudes do que com me salvar de um castelo amaldiçoado ou me livrar de um sono eterno. Então, faça o que eu digo, Seu garçom, faça o favor. Desça duas doses de homens perfeitos, uma para mim e uma para minha amiga ao lado. Para ela, desça um homem sincero e dedicado, que ligue no outro dia, que abra a porta do carro, que pague o cinema, o jantar e o cafezinho sem exigir a metade. Que namore, noive e case. Ela me disse que gosta de homens cavalheiros, já eu não acho que isso seja cavalheirismo, mas sim máscara de lantejoula que tem prazo de validade... Mas enfim, meu Caro Garçom, cada um com o seu ideal de perfeição certo?!

Para mim? Ah, pra mim traga um homem desses, cheio de qualidades admiráveis e defeitos decepcionantes. Esses que você encontra em qualquer lugar, pois no fundo, no fundo, todos são dessa forma por dentro. Não sou muito exigente não, já disse que não creio nos príncipes encantados. Ele só deve ter paixão no olhar, delicadeza nas palavras, amor entre as mãos. Quero um desses homens que te digam a verdade sempre, mas que ainda sim, guardem os seus segredos. Afinal, nem tudo é feito para ser revelado... Um que preserve algum mistério no olhar, ainda que seja segunda-feira de manhã. Algum que nas situações mais estressantes e complicadas, ainda tenha guardada uma gargalhada sincera e boba, típicas das pessoas que encaram a vida de peito aberto. Alguém com a alma livre e nua, que goste de dançar e não tenha receio do que as pessoas irão dizer. Que goste de ler, que pense em conhecer o mundo, que não limite a vida ao seu próprio umbigo. Pode ser? Ei, ei seu garçom, traz dose dupla tá? Pois hoje eu quero me embriagar de um homem assim!

13 março 2010

Exagerada

Eu amo fazer uma tragédia, colocar algumas vírgulas a mais, algumas pausas, exagerar na intensidade. Aliás, pra falar a verdade, eu sempre amei exagerar, não tenho vergonha alguma de admitir! Se é genético ou não, não sei, mas desde pequenina sou assim. Digo: “Minha cabeça hoje está prestes a explodir!” Quando na verdade a dor de cabeça passa com um comprimidinho e dez minutos de sono; “Ontem bebi litros de álcool.” Quando, na verdade, bebi uma taça e meia de vinho; “Não tenho roupa alguma!” Mesmo que o meu armário esteja vomitando peças; “Hoje eu só quero morrer!” Quando uma boa noite de sono e umas boas linhas de escrita podem realmente me acalmar.

Já ouvi algumas pessoas dizerem que o meu problema é esse, sou intensa demais em tudo o quê costumo fazer. Será problema ou solução? Já pensei tanto nisso... Porque sim, ser dessa forma pode causar efeitos colaterais adversos. Da mesma forma que pode te trazer coisas boas, igualmente pode trazer coisas ruins. Mudar? Sim, há sempre um jeito, mas todos que optam por este caminho podem estar sujeitos a duras penas. Afinal, mudar a essência pode causar danos irreparáveis. Há algumas semanas, lendo o livro “Clarice,” me deparei com uma frase da própria Clarice Lispector que me tocou: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Acredito que isso seja uma verdade absoluta. Todos nós somos compostos de defeitos e qualidades, erros e acertos, que formam o nosso interior, que nos identificam e caracterizam. Faz sentido querer mudar as colunas de uma edificação? É claro que não! Corremos sempre o risco de perder toda uma construção, que levou anos para ser concluída. É por essas e por outras que eu sempre defendo a autenticidade, a personalidade, a essência única que cada ser possui. Que nós sejamos essência, sempre! E que vivamos sim com os nossos exageros ou com a falta deles...




Esse post só poderia ter uma trilha sonora: ♫ Exagerado - Cazuza ♫
"Eu nunca mais vou respirar, se você não me notar. Eu posso até morrer de fome se você não me amar... E por você eu largo tudo: Vou mendigar, roubar, matar. Até nas coisas mais banais, prá mim é tudo ou nunca mais! Exagerado, jogado aos teus pés eu sou mesmo exagerado. Adoro um amor inventado..."

10 março 2010

Mergulhar mais fundo

Levantou-se da cama num estalo. Como ousara dormir por tanto tempo? Tantas coisas a fazer, tantas decisões a serem tomadas. Olhou na janela, já era noite. Havia dormido muito mais do tinha imaginado. O dia havia sido aterrorizante, no trabalho milhões de tarefas, problemas pendentes, brigas... Em casa a situação não era diferente. Fechou as cortinas claras, lá fora um frio ar noturno soprava. Acendeu as luzes e caminhou até um grande espelho. Olhou-se, penteou lentamente os cabelos com os dedos. Olhou profundamente o reflexo de seus olhos. Pensava na vida, nas dificuldades que enfrentava dia após dia, nos amores improváveis, nas fantasias absurdas que ousava criar sozinha no quarto. Os olhos vivos, dois universos presos num mar denso e profundo.

Pensava: desconfio do improvável, tenho medo do impossível. Fiz promessas que nunca poderei cumprir. Tenho saudade do que eu não vivi, nostalgia de palavras que não foram ditas. Sou descontroladamente repentina. Estou feliz e de repente entro em um transe preocupante, os olhos abertos, fixos, trágicos, inócuos na escuridão. Hoje ele me perguntou no que penso, eu não sei o que pensar. Ah, minhas palavras... Elas são ásperas, o meu choro chega a ser preocupante. Minha vida? Na opinião de todos é boa o suficiente para que não haja uma única reclamação. Meus sonhos são impossíveis, meu gosto duvidoso. Minha alma é cheia de espinhos, as pessoas tem medo de mergulhar. Eu tenho medo de me entregar... Minhas convicções são erradas, a minha fé inadequada. As minhas palavras são vazias, minha voz é fraca e os meus complexos são inteiros. O meu calor não é suficiente, o meu tom poderia ser melhor. Meu carinho? Oco. Meus passos? De ninguém. Minha vida é simplesmente sem direção. Meus sentimentos são absurdos, complexos, amplificados ao extremo. Minha tristeza é drama, minha risada é forçada. Minha vida pura ilusão.

Sabe? Tenho andado de mãos com a solidão. Uma solidão acompanhada... Tenho muitas pessoas ao meu lado, mas poucas sabem realmente o que eu sinto. Quero um mar de águas límpidas, eu quero mergulhar mais fundo. Quero me sentir limpa dessa vida aterrorizante, desse poço sem fim. Minha alegria? Ah, essa anda escassa, fraca, sem cor.

Voltou-se ao mundo real. Olhou mais uma vez o reflexo de seus olhos no espelho e disse baixinho: Eu quero mergulhar mais fundo.

02 março 2010

Eu ainda posso ouvir

Ela passa quieta por ele, ele passa quieto por ela, mas mesmo assim, ainda dá para ouvir, de longe, o barulho que eles fazem. Uma sinfonia de corações que batem gelados, estúpidos, inertes ao desejo que pulsa mais alto e forte que a indiferença. O silêncio definitivamente já não cabe no vão das coisas que disseram um ao outro. E todas as verdades imutáveis que haviam dito, aquelas que saíram vibrantes pela boca, em semanas foram transformadas em pequenas mentiras. Não ela não o odiava, sim ele ainda a queria, sim ela ainda o amava. Era inquestionável. Eles ainda se gostavam. No entanto, naquele momento, eles se cruzam calados, os olhos baixos. Um silêncio perturbador e tudo o quê mais desejavam possuí nome: um ao outro.


Quando diziam que não dava mais, que não se queriam, a frase saia embaçada, estranha, deformada. Não, aquilo tudo não era verdade. Eles se queriam mais do que nunca, queriam sim as mãos que se tocam, os beijos, abraços, as mentiras bobas, os olhares, o afeto. Queriam brigas de ciúmes novamente, ter um choro calado por uma única palavra. Talvez, quem sabe, o amor entre eles tivesse deixado de ser menos amor para continuar sendo amor, para continuar a viver, para sobrevivente a mais um naufrágio. Assim, ele passa mudo por ela, ela passa calada por ele, mas eu ainda ouço... Sim, eu ainda posso ouvir o enorme barulho que eles fazem.


04 fevereiro 2010

Lembranças

[...] Mas da saudade eu tenho medo, do final, do adeus. Acabar algo sempre dói, mesmo quando foi você quem escolheu que fosse assim. Jogar planos fora dói. O final sempre deixa um gosto amargo na boca, uma vontade seca e corrosiva, descendo forte e latente pela garganta. Depois uma saudade que não passa, que machuca, que sangra a cada momento, a cada lembrança, uma agonia lasciva que chega profunda, quando o olhar, sem querer, toca algo que fez parte da história de um dois. Corri da saudade durante anos, guardei coisas que deveriam ser jogadas fora, escondi de mim mesma muitas verdades. Não há jeito, a saudade te acha onde quer que você esteja, faça o que você fizer.


Eu sei o quanto pensar no que já foi dói, na renda branca que cobria suas mãos, nas flores brancas, na risada alta dada no parque algum dia. Porém, acredito que o quê fere mais é essa saudade absurda que aperta o estômago, é esse desejo de viver tudo o que não foi vivido, são todos os momentos que eu não passei, a felicidade que eu não pude agarrar. Aquele eterno clichê “isso passa”, não funciona de forma alguma neste momento. Não, não vai passar enquanto eu não decida que irá passar, enquanto eu não permita que seja assim. E você sabe, da saudade eu tenho medo, já te disse algumas vezes. Quero ainda te guardar inteiro, pleno, vivo em minha memória, em algum lugar onde não exista adeus, nem despedida. Num lugar onde o sol ardia quente e eu ainda era uma criança, apenas mais uma criança, que sorria enquanto nós brincávamos juntos no parque.


04 janeiro 2010

Águas limpas e profundas

Muito pior do que se sentir perdida, sem direção, é perder-se dentro de si mesma. No alinhavar dos pensamentos, no emaranhado de pedidos e objeções, na forma líquida e robusta dos desejos.


Não há nada pior do que afogar-se no rio de idéias que brotam de dentro e não ter força, nem vontade, de se agarrar a uma delas para submergir. Seu corpo submerso, pesado, antiquado, em uma vazão de águas limpas e profundas. Os olhos abertos dentro da água e você olha maravilhada, estagnada ao ver passar alguma cena incrustada naquelas águas. Um primeiro beijo nervoso e abobado passa devagar, lhe acena. O livro “Reinações De Narizinho” passa pelos seus olhos rapidamente. Passa uma rosa vermelha. Uma música toca, ela lhe remete à infância. Um cheiro lhe toma os sentidos e rapidamente você pensa que não é possível cheirar de baixo da água. Porém ali tudo é possível de se tornar realidade, tudo é maravilhoso, tudo tem cor de pedra ônix. Ali é você no mais profundo que se pode tocar, é o seu íntimo, a sua fortaleza, o lugar onde ninguém chegou, nem nunca poderá chegar.