27 outubro 2010

Recortes

[...] Deus me deu olhos que enxergam demais. Enxergam além do que muitas pessoas conseguem ou querem enxergar. Talvez esta seja a razão do meu fechamento para o público. Costumo desconfiar do impossível, exagerar na intensidade das ações. Definitivamente eu não sou pública, não sou algo do tipo aberto à exposição, sou fechada, discreta, muitas vezes, ambígua. Na minha vida tudo é construído de forma lenta e gradual. Mas costumo amar demais e com intensidade tamanha, que algumas pessoas costumam se assustar. Tenho dentro de mim um farol praieiro, daqueles que iluminam tudo a sua volta. E ele sim, é afeito de grandes manifestações, das grandes e intensas paixões. Ele envia sinais grandiosos as pessoas que me cativam, e esses sinais costumam cegar: a mim e aos outros. Ta aí um defeito constante: exigir amor e sinceridade demais, exigir talvez, quem sabe, uma farol praieiro no coração de algumas pessoas que não possuem nem uma lampadinha acesa dentro de si.

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[...] Eu costumo ser uma pessoa intensa demais. Em tudo. Procuro há anos um equilíbrio que não vem de forma alguma. Sou exigente com tudo que orbita em torno de mim, que está de alguma forma ao meu redor. Sou exigente comigo e com os outros. Não procuro a aprovação de ninguém, pois já sofri muito por esperar algo que não vinha nunca. Jogo limpo sempre. Sinceridade é essencial para mim. Tenho a alma livre e complexa. Sou de certa forma, complexa. Inteiramente ambígua, quem sabe seja essa a definição correta. E, tendo eu esta maneira limpa de ver o mundo, muitas vezes exijo que as pessoas enxerguem tudo da mesma forma que eu. Mas isso não é possível. Não é possível porque, simplesmente, ninguém é uma extensão de mim, não é e nem deveria ser. Sei, acredito e confio que cada pessoa é um ser único, um universo complexo, uma dimensão paralela. Difícil é por esse conhecimento em prática.

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[...] Tenho andado perdida de você. Nossos caminhos não parecem mais se cruzar. Isso provoca angústia e alívio, pois às vezes, confesso, procurava fugir do tamanho desse amor. Ele era tão grande que costumava doer. Agora provoca topor, amargor, ânsia... O que está presente em mim é o medo da entrega. Então agarro-me a uma bóia qualquer para não submergir, para não me afogar dentro de você. Seu mar é tão denso e profundo quanto o meu. Devo mergulhar? Devo me afogar? Tudo em você é tão real e ao mesmo tempo tão frágil. O que é isso que carrego dentro de mim? Será que devo acreditar?