30 dezembro 2012

DE ÁGUA NEM TÃO DOCE




Criava uma sereia na banheira. Trabalho, não dava nenhum, só a aquisição dos peixes com que se alimentava. Mansa desde pequena, quando colhida em rede de camarão, já estava treinada para o cotidiano da vida entre azulejos.

Cantava. Melopeias, a princípio. Que aos poucos, por influência do rádio que ele ouvia na sala, foi trocando por músicas de Roberto Carlos. Baixinho, porém, para não incomodar os vizinhos.

Assim se ocupava. E com os cabelos, agora pálido ouro, que trançava e destrançava sem fim. "Sempre achei que sereia era loura", dissera ele um dia trazendo tinta e água oxigenada. E ela, sem sequer despedir-se dos negros cachos no reflexo da água da banheira, começara dócil a passar o pincel.

Só uma vez, nos anos todos em que viveram juntos, ele a levou até a praia. De carro, as escamas da cauda escondidas debaixo de uma manta, no pescoço a coleira que havia comprado para prevenir um recrudescer do instinto. Baixou um pouco o vidro, que entrasse ar de maresia. Mas ela nem tentou fugir. Ligou o rádio, e ficou olhando as ondas, enquanto flocos de espuma caíam dos seus olhos.

Colasanti, Marina. contos de Amor Rasgados. Rio de Janeiro: Record, 2010.

06 julho 2012



De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...

Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...

Fernando Sabino

11 maio 2012



"Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajeto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da Chuva incessante,
Desistindo de um projeto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples ato de respirar.
Estejamos vivos, então!”

Martha Medeiros

03 março 2012

Pequena Sabedoria


Tenha calma e acomoda-te, pequena. A vida continuará mesmo que você se recuse a seguir. Mesmo que não queiras avançar, o fluxo contínuo desse rio denso e profundo te levará para onde não queres ir. Mas irás. Sim, irás levada pela correnteza, pela corrente de água sem fim que te prende e te liberta. Acredite: é passível de fazer sentido a qualquer um. Confie e sossegue tua alma. Abra bem os braços e as pernas, sinta a energia eletrizante da vida a pulsar em tua derme e deixe-se flutuar.

É fato que em alguns dias o rio estará mais revolto e é aí que deves praticar a sabedoria. Compreende a natureza das correntezas. São como as que têm dentro de si, infinitas, contínuas, sem direção. Treina a tua paciência nesses dias. Feche bem os olhos e mais uma vez: deixe-se flutuar. Da mesma forma, também haverá dia de intensa calmaria e tranqüilidade, e mesmo que o teu espírito energético e fluídico queira insistentemente mudar essa situação, nada ocorrerá. Já disse algumas vezes, mas vou dizer mais uma, pequena: tente entender a natureza do rio. Ele é como você, pequena, ele é como você...