22 maio 2010

Nua

Cruzou os braços sobre o peito e retirou delicadamente a blusa. Primeiro a cabeça, depois os braços. Seu dorso branco, alvejado por pequenas pintas que lhe cobriam todo o busto, a barriga, os ombros. Depois, a calça jeans azul escuro, as peças íntimas, e por fim as meias. Sentiu na palma dos pés a temperatura absurdamente fria que estava impregnada nos azulejos verde água do banheiro. Estava nua enfim. A pele enrubescida por conta do frio que fazia naqueles meses típicos de inverno, os pelos eriçados eram apenas coadjuvantes de um todo.

Soltou os cabelos que estavam presos e calmamente girou a torneira de água quentíssima. O vapor vindo do chuveiro tomou conta lentamente do espaço, grudando entre os azulejos laterais, cravejados de pequenas florezinhas coloridas, embaçando o espelho no qual ela se olhava, nua. Estava assim, inteira, plena, completa, sem peça alguma que lhe cobrisse o que estava na maioria do tempo coberto, sem nada que, enfim, lhe impedisse de ser o que realmente era. Seu olhar passava vagarosamente por pedaços de seu corpo, as mãos, os braços, as pernas. Pensava estar ali, refletida no espelho, a sua verdadeira imagem. Aquela que poucas pessoas ou quem sabe, nenhuma, conhecia. Ousava crer que, assim como seu corpo nu era desconhecido por outras pessoas, também era desconhecida sua alma, seu profundo universo. Seu pequenino universo, sua enorme alma. Vagarosamente sua imagem foi desaparecendo do espelho, escondida pelo quente e úmido vapor da água. Sim, aquela era ela no mais profundo que se poderia tocar, no mais profundo que alguém poderia chegar. Seu corpo era um universo em órbita e, todos os dias, em todos os momentos, tudo o que mostrava aos outros não era um terço do montante que era. Debruçava-se, escondida pelos grossos muros de suas palavras, por suas roupas, suas mentiras, sua complexa angustia. Protegia-se por máscaras, por adereços, por artifícios. Resguardava por fim, sua essência que julgava pequenina e gigante, reservada para alguns poucos, somente aqueles que poderiam e gostariam entender. Mas, sim, agora lá estava ela, ali estava a sua mais profunda imagem, o seu mais verdadeiro reflexo. Jogou o corpo debaixo do jato de água quente e este respondeu rapidamente, molhando cada parte do seu corpo, cada espaço do seu ser. E, submersa naquelas águas, introspecta em sua alma, devaneou quantas correntezas sem direção, quantos universos espalhados pelo mundo. Universos como seu corpo nu em frente ao espelho, cheio de marcas, feridas, concreto e poeira. Ah, como o seu conhecimento era limitado. Sabia de si e mais nada.