16 dezembro 2009

Egoísmo Pleno

Me deixa ser egoísta, pois hoje eu acordei inteira, plena, revigorada. Pedaços? Doses pequenas? Não, hoje não. Muito obrigada. Nunca gostei do copo quase cheio, da metade, do morno. Quero a vida por inteira, em doses triplas, faz o favor. Sabe o que eu quero? Eu quero o quente ou mesmo o frio, que seja! Só não me venha com esse seu papinho morno, cheio de dedos, porque este eu não agüento mais!

Não sei o motivo, mas gosto de pensar que se fazemos o que manda o coração, tudo no final se ajeita. Essa idéia me conforta, me ilumina. Sou fiel aos meus sentimentos, aos meus desejos e vontades. Não gosto de guardar mágoas, mas volta e meia elas submergem dentro de mim. Sou apaixonada pelo o que não existe, sou contra o meio termo. Sempre fui aquela (sabe aquela?) que fala a primeira coisa que vem a cabeça, que convive com a teimosia irritantemente cotidiana, que ama por inteiro, que se diz sã em um mundo de loucos.

Meu coração tem enormes asas e anda livre por aí, muitas vezes trôpego, por conta de todo amor que carrega dentro de si. Tenho a inquietação na ponta dos pés e na palma das mãos uma imensidão de sonhos.

23 novembro 2009

Bobos


O dia estava quente, abafado. Passava do meio dia, o sol lá do alto parecia olhá-los por entre as poucas nuvens brancas. Sentados na grama, eles conversavam sobre qualquer coisa. Falavam sem parar, jogando as palavras entre os dentes, deixando que saíssem atrapalhadas por entre a língua e o céu da boca. Um vapor quente vindo do asfalto os encobria. Ambos submersos na angustia de um primeiro encontro. De repente um macio silêncio lhes cobriu a boca. Calados. Ele olhando para baixo, ela olhando para cima. A grama muito verde. A bola de fogo vestida de branco.


Ansioso, ele arrancava pequenas folhas de grama. Ansiosa, ela havia fechado os olhos, mas continuava a olhar para cima. Era hora do almoço, não tinha comido nada. E quando as palavras se esconderam, ele sentiu gosto de fome em sua boca. Teve então medo de beijá-la, enquanto um turbilhão de sentimentos veio lhe tomando a mente. E se ela fosse apenas sua amiga? E se não gostasse do seu beijo, do seu jeito, dos seus sabores? Que bobo que era!


Ele gostava de cães, ela de gatos. Ele gostava de matemática, ela de português. Ele lia Aluisío Azevedo, ela os poemas de Drummond e Vinicius. Ele ouvia rock nacional, ela Chico. Isso deveria ser sinal de que algo não daria certo. Abriu os olhos. Ele estava a arrancar folhas de grama, parecia procurar algo. Será que procurava flor? Que boba que era!


Ele olhou a grama em suas mãos, olhou os livros espalhados pelo chão, olhou o rosto dela. Seus olhos fechados pela claridade, a boca aberta, as mãos tocando o chão, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Olhou o céu, as nuvens, olhou os carros. Decidiu. Levantou. Bem eu tenho que ir, nos falamos qualquer hora. Ela se levantou sem dizer nada. O puxou pelas mãos e o fez sentar novamente. Fechou os olhos. A boca tremula esperando por um beijo. Que bobos que eram!

04 outubro 2009

Sinestesia


Deitada na cama ela virava de um lado para o outro, buscando a forma mais confortável para dormir. Na manhã seguinte acordaria cedo para viver mais um dia rotineiro, trabalho, faculdade, livros, trânsito. Porém, não havia jeito: o sono calmo e acolhedor não vinha de forma alguma. Ajeitou os travesseiros, jogou com força os lençóis ao ar e estes responderam calmamente, caindo levemente sobre seu corpo.

Todas as noites, antes dormir, ela se lembrava e se esquecia de tudo o que havia acontecido durante o dia. Era necessário seguir em frente e de alguma forma tocar a vida. Depois do sono, um novo dia iria acontecer e quem sabe também uma nova história? Sim, era realmente nisso que ela acreditava, esta era sua âncora, mas naquela noite tudo era diferente. Os olhos abertos na escuridão viam cenas de um passado remoto, fotografias recortadas, sorrisos, olhos assustados, bocas, lembranças, frases, pessoas, cartas e perfumes. O momento era totalmente sinestésico: ela cheirava momentos, ouvia gostos, sentia sons. Uma tempestade de sensações ondulava e fazia estremecer cada pedaço do seu corpo. Subitamente surgiu dentro dela uma saudade absurda de tudo o que não havia vivido. Um enorme vazio tocou fundo sua alma, um sentimento de não-viver, não-sentir ecoava lento e seco dentro de seu coração.

Fechou novamente os olhos: precisava dormir.


29 agosto 2009

Quando acabou

Quando acabou, desistiu de acompanhar os naufrágios e decidiu caminhar sozinha. Queria esquecer todo aquele sentimento em algum lugar, até que um dia ao encontrá-lo, audaciosa lhe perguntasse: Ei, você ainda esta aí? Engoliu o choro, transformou a dor em passatempo, construiu um grosso e forte muro de proteção em torno de si. Afinal, as coisas, todas elas, possuíam um começo, um meio e um fim. E ali estava o fim, era evidente. Custou a entender isso, mas um dia, viu a estrada se bifurcando e então teve certeza: era hora de construir algo novo, caminhar por um longo trecho sozinha e deixar todas aquelas lembranças guardadas em um canto qualquer.


Até que um dia, distraída em uma avenida movimentada, viu um vulto passar próximo de si. A mesma forma esguia de sempre, a mesma expressividade, o mesmo andar, os mesmos olhos desconfiados. Porém, ele nem de longe possuía o mesmo peso que um dia havia possuído. Ele era a mesma pessoa, ela não. Incrível como aquela sensação não lhe causava mais nada. Nem metade do pavor que teria sentido antes, nem um terço de todo aquele amor que um dia, desesperada, desejou calar. Nada. Apenas um sentimento resignado, calmo, consciente de que todo aquele sentimento desenfreado havia se transformado em calma brisa de verão.

Foi só então, apenas a partir dali, que ela teve certeza: havia acabado.

21 agosto 2009

Flor de maio

Sentou-se no sofá branco olhando fixamente para algo. Olhava, mas não via nada, perdida em algum lugar dentro de si. Os olhos parados, duas grandes órbitas presas em outra dimensão, perdidas na imensidão de toda uma vida... Quando saiu do transe, colocando-se novamente dentro do mundo real, percebeu um pequeno ramo flores em um jarro de água. Logo ali, na estante de sua sala. Eram algumas daquelas flores de maio, lindas, exuberantes e delicadas ao mesmo tempo. Alguém havia lhe dado, alguém que ela nem ao menos se lembrava. Poderia ter sido qualquer pessoas, mas isso realmente não importava. Importava apenas, que aquele pequeno ramo de flores de maio era realmente especial, era não, havia se tornado especial naquele exato momento. Ela havia se dado conta, ali submersa na correnteza sem direção de sua alma que aquelas flores não haviam desabrochado em maio, mas sim em agosto.

As flores estavam ali há tanto tempo, mais de uma semana e o ramo ainda não deixava escapar nem um tantinho de sua vida e graça. Verde, imponente quase que implorando, esperando por alguém que lhe desse nova terra, esperando por alguém lhe devolvesse a vida. Flores de maio em sua estante da sala. Exalando e não exalando vida, um daqueles milagres acidentais da natureza, como um lindo arco íris no asfalto.

Ela era uma flor, ela era uma flor de maio e como a flor, precisava de nova terra, necessitava de um ponto de partida para novamente recomeçar. Pegou o ramo de flores delicadamente e foi até a varanda de sua casa. Pensava em plantá-lo em algum em algum vaso. Era isso o que ela também pretendia fazer a si mesma a partir daquele momento. Nova terra, nova vida.

02 agosto 2009

Mil Mulheres

Ela se fazia de mil mulheres.
Pela manhã, com o sol, era trabalhadora, dedicada, construtiva. Fazia acontecer. Fazia dinheiro, fazia inimigos, fazia chover se fosse preciso. E de tarde, quando a tristeza batia à porta, quando uma enorme angustia lhe subia garganta a cima, chorava. Não chorava por isso ou por aquilo. Chorava porque uma ânsia de viver o que tinha para ser vivido, porque uma dor tomava conta, pouco a pouco de cada pedaço de seu corpo. Chorava porque uma gastura, um nó na garganta lhe dominava e arrebatava. Então, tentava limpar o rosto e acendia seu cigarro. Sofria por alguns instantes, o tempo do cigarro acabar. Tomava um café, colocava-se em frente ao espelho e ajeitava os cabelos, limpando os resquícios ameaçadores daquilo que havia tomado seu tempo precioso. Recompunha-se. Afinal, não possuía tempo para se lamentar no meio daquela selva de batom na qual vivia e ela não queria, não podia, chorar no ônibus. Em casa os filhos a esperar, o fogão a esperar, o marido a esperar.

A angustia vinha do querer mais, do desejar mais. Sim, ela desejava mais. Queria não ter medo, nem vergonha de ainda desejar. Queria primeiras vezes outras vezes, um primeiro beijo outra vez. Queria conhecer um novo lugar, extreiar algo, ter novas sensações dia após dia. Queria ar, não ser sufocada por aquelas milhões de exigências e obrigações como ser a melhor funcionaria do mundo, a melhor filha do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor mãe do mundo. Queria por em prática as idéias que nunca teve coragem de realizar, se divertir fazendo coisas inesperadas. Ao chegar em casa escondia então o lado insatisfeito da vida, o seu lado transgressor, pois não podia, não queria chorar na frente dos filhos.
Ela mais do que ninguém sabia que para viver era necessário parecer e muitas vezes não ser. Continuava, seguindo sua vida, as vezes até se esquecendo de quem realmente era, do que realmente desejava no meio de tantas mulheres dentro de si, de tantas insatisfações, de tantas personagens que era obrigada a encenar dia após dia.

E quem é que esta satisfeito com o que têm? Todos queremos sempre mais, esperamos sempre mais da vida.
Ainda bem!

20 julho 2009

Conclusões feitas por ele

Amor. O que é o amor para mim? Nossa, que pergunta a sua heim?

Não sei. Realmente eu não sei. Porque me pergunta isso?

(Silêncio)

Ok, talvez eu saiba. Vou te dizer que penso, é algo muito meu, algo que venho pensando a anos.

Na escola eu vivi o meu primeiro amor, tão inexorável esta sensação não acha? Minha professora. Ela não era bonita e não era feia. Alta, magra, calada. Parecia sempre estar presa em um mundo somente dela e aquilo me causava um pavor, uma insegurança tamanha, que todo aquele sentimento foi se transformando pouco a pouco em amor.

Um amor em forma de idolatria. Talvez eu só amasse o que ela representava. Eu, garoto de sete anos, tímido, calado, esquisito e ela era tudo o que eu desejava pra mim. Como eu desejava ser como ela. Seus copos de água antes da aula começar, seus beijos carinhosos em minhas bochechas que ficavam instantaneamente ruborizadas. Seus olhos caindo por debaixo dos óculos daqueles grossos aros negros, para observar minha caligrafia que propositalmente, ia de mal a pior. Ninguém na primeira série sabia escrever tão corretamente quanto eu. Mas era um plano maligno: eu fazia questão de rabiscar os Ss ao contrário, fazer Es que mais pareciam Ls e Ls que mais se pareciam com Es. Então, lá vinha ela, minha adorável professora, fazendo caretas sinistras ao olhar meus cadernos. A sensação de tê-la perto de mim era inexplicável. Ela se zangava comigo e dizia que eu podia muito mais que aquilo. A vergonha tomava conta de mim e eu humildemente abaixava a cabeça fingindo choro, não sem perder a alegria frenética que sacudia minha alma, que transportava uma energia inconfundível por todo o meu corpo, pelo simples fato de ter o seu rosto, os seus olhos tão perto de mim.

Pequenos segundos, grandes eternidades que eram somente meus e de nenhum dos meus outros colegas de classe.

A primeira série passou rápido como um raio e entre gibis, bola de gude, vídeo games e partidas de futebol comecei a me distanciar das mulheres em geral. Meus amigos, meu pai e a seleção brasileira eram o meu mundo. Foi quando, de repente me vi no alto da puberdade. E lá estava eu, garoto que era, com pelos crescendo por todo o corpo, transformações tão rápidas que me assustavam.

A descoberta de pequenos mundos era constante, todos os dias me deparava com algo novo. Foi quando me deparei com o sexo oposto. Com as mulheres que até então haviam sido excluídas do meu mundo. Até então. Foi com Aninha, minha colega de classe que descobri o que era gostar de alguém. Pura ilusão. Aninha nunca me deu bola, nunca uma olhada sequer, nunca um sinal de aprovação. Eu, ao contrário, enviava diariamente milhares de sinais a ela: -Ei, eu estou aqui, estou aqui!

Com o meu primeiro amor descobri o que era sofrer. Sofrer no sentido mais amplo da palavra. Afinal, eu no alto dos meus quatorze anos, não sabia distinguir o que era pra ser levado a sério e o que era. Sofri muito por Aninha. Mas estou me distanciando do tema que me foi proposto. O que é o amor pra mim afinal? Bom, eu já tive algumas namoradas, paqueras, rolos, flertes. Hoje sou homem feito, posso decidir o que quero fazer da minha vida: se abro o coração para um novo amor ou se continuo do jeito que estou. Porém vou te dizer uma coisa sobre o que conclui com o amor: o tempo dilacera os relacionamentos, os desgasta. Não só o tempo, o tempo e tudo o que ele carrega consigo.


Cheguei a esta conclusão há algum tempo atrás. Estava eu voltando das férias na casa de praia dos meus avôs. Férias ótimas, muito sol, praia todos os dias, mulheres, futebol de areia. Estava com 17 anos. Eu voltaria com um ônibus rodoviário que saia todos os dias a tardezinha rumo a São Paulo. Sentei-me em uma cadeira próxima a janela, que dava vista para o terminal rodoviário e mais alguns ônibus que seguiam outros destinos. Foi quando me deparei com ela. Sentada na cadeira de um outro ônibus, me olhava com um olhar perdido. Talvez, pensasse que eu não a via. Olhar curioso, olhos verdes que mesmo com certa distância poderiam ser notados. Pele morena, cabelos ondulados. Quando ela percebeu que eu também a olhava sorriu e ruborizou. Fingiu olhar outra coisa, desviou o olhar, mas quando ele voltou para o seu ponto de partida, para ter a certeza que eu não estava mais a olhando, me encontrou firme e forte, olhando-a fixamente.

Ficamos assim durante um tempo, até que audacioso, mandei um beijo a ela. Ela sorriu e retribuiu o beijo. Ainda mais audacioso, mordi a boca, tentando tomar alguma atitude mais sensual. Que ironia. Aquele meu ato, foi algo cômico. Ela sentada na cadeira do outro ônibus parecia gargalhar. Fez uma careta e sorriu novamente. O ônibus partiu, e eu só tive tempo de lhe dar tchau, sinal que ela retribuiu com certo carinho. Nunca esquecerei aquela menina. Simplesmente porque ela foi o amor mais lindo e mais puro que já tive. Sem cobranças, sem mesquinharias, sem egoísmos de ambas as partes. Foi bonito porque simplesmente não teve tempo de acontecer, não teve tempo de ser estragado por essa rotina absurda, por esse tempo dilacerante. É exatamente por isso, que o guardo aqui dentro até hoje. Um amor tão rápido que acabou assim que o ônibus partiu e eu me despedi. Porém, um amor que eu sei que nunca vai ser apagado de mim.

Tá aí, o que eu acho (ou não?!) do amor.


15 julho 2009

Pássaros rumo ao sul

Porque ele havia se tornado muito mais que apenas mais um. Ela necessitava dele, necessitava violentamente dele e sabia que daí vinha a tempestade dentro de si. Por que desejar algo que não podia possuir inteiramente? Por que se alimentar de algo que a consumia dia após dia? Já não bastava somente a si mesma? Não, ela não se bastava. Precisava dele descompassadamente, dele, somente dele. Como algo tão pequeno poderia ter se tornado tão grande? Não sabia responder... Naquele momento, sabia apenas que a angustia tomava conta de cada parte de seu corpo. Estava fora de seu alcance mudar tudo aquilo. Tempestade de sentimentos. Deus! Como desejava bastar-se. Por que toda aquela fixação em tê-lo pra si, em desejá-lo tão vasta e profundamente? Talvez, quem sabe, tivesse se acostumado a proteção daquele homem que era uma parte essencial de sua vida e via o quão perigoso era tudo aquilo. Já não bastava estar protegida pela sua própria força, necessitava da dele. Ou talvez tudo aquilo fosse movido pela necessidade de receber sem que fosse esperado dela algo em troca. O que recebia dele era gratuito, sem regras ou cobranças. Dessa forma, via-se submersa naquela maré de sentimentos. Imaginava-se como os pássaros que migram rumo ao sul no inverno, mas que sempre voltam para casa nos primeiros dias de verão. Podia seguir rumo ao sul nos meses frios e gelados, porém desejava profundamente voltar para casa, para seu porto seguro. Perguntava-se então: como amar a liberdade se, após longos períodos libertos, tudo o que mais desejo é voltar para o meu Sul? Esta era apenas mais uma pergunta que ela não sabia responder.

30 junho 2009

As cortinas de algodão


Manhã de quarta feira. São sete horas. Quarta feira cheia de neblina, tempo frio, ar revigorante. Ela abre a janela e as cortinas do seu quarto. Fecha os olhos, respira fundo. Sente o sopro da vida entrar dentro de si, dominando cada parte do seu corpo. Olha para o céu nebuloso a procura do sol. Ele estava ali, em algum lugar, escondido entre qualquer uma daquelas centenas de nuvens negras que cobriam o céu tempestuoso. Lembrou-se da canção que costuma ouvir "A tempestade que chega é da cor de seus olhos castanhos”. Mais um dia. Pensou ela, só mais um. Mais um dia naquela cidade cheia de carros, fumaça e buzina. Olha ao redor, apenas prédios robustos e altos a observavam.
Sentia-se sozinha, uma solidão torta. Como em um filme que havia vistos tempos atrás, onde o personagem principal não entendia bem o mundo que lhe rodeava. Foi quando pensou nele. Naquele homem que havia sido uma parte essencial de sua vida e que hoje não passava de fotografias guardadas em uma caixa velha dentro do armário. Pensou nele e em tudo o que já viveram juntos. Talvez o clima favorecesse nostalgia, não entendia bem tudo aquilo, apenas sabia que, misturado ao ar gelado que entrava por entre as cortinas de algodão, estavam milhares de lembranças dele. Dele e dela. Estranhou pensar neles como um casal. Há tanto tempo não pensava assim. E então, os momentos foram passando como um filme antigo projetado dentro de si, sorrisos, caras e bocas, risadas, bobagens sussurradas ao pé do ouvido. Agora? Agora a solidão era a herança de tudo aquilo. Ela, as janelas abertas com cortinas de algodão e uma casa quase sem mobília. Solidão. Esse era o seu legado, pensou. Respira fundo novamente. Solta o ar calmamente. Solidão.

Acima de tudo sentia o prazer de estar ali, naquele momento. Um momento apenas seu e de mais ninguém. Pensou que todas aquelas histórias que eram apenas suas. Afinal, mais ninguém via tudo aquilo como ela via, aqueles pensamentos eram somente seus. Nem ele deveria ver a história dos dois a partir do prisma que ela enxergava. Ela via tudo através de um caleidoscópio, com vidrilhos de todos os formatos e imagens coloridas. O que ela via não era real, nada daquilo deveria realmente ter acontecido. Mas ela gostava apenas de imaginar. Observava tudo o que ocorreu de uma maneira tão bonita, tão leve, tão sua.
Não tinha vontade de voltar no tempo. Aquilo eram lembranças que definitivamente haviam ficado no passado. Para sempre. Porém, gostava de pensar que ele sempre estaria dentro dela, de uma forma ou de outra. Não queria, de forma nenhuma, tira-lo dali, ele seria seu, para sempre e de uma forma totalmente afastada da realidade. Ela podia modelar todas aquelas lembranças da maneira que achava melhor, adaptá-las as suas fantasias mais secretas. Solidão. Sim, aquele momento, aquelas lembranças lhe traziam coisas boas. Estava sozinha e gostava de estar assim. Ela, suas lembranças e as janelas com cortinas de algodão. Pensou nos dois, um dia juntos, novamente. Não, não! Ela disse bem alto, como se de fato estivesse falando com alguém: - Eu não quero viver lhe roubando o prazer da solidão.


07 junho 2009

O amor é importante.porra


São Paulo. Capital da rapidez, da malandragem, do proveito, da astúcia, do negócio, do dinheiro, dos ternos, dos carros, da poluição. E eis que outro dia, em pleno Brás, mais exatamente na Avenida Celso Garcia, me deparo com está frase pichada em um dos muitos muros de uma passagem movimentada: "O amor é importante. porra" . Em letras grafais, grandes e pretas. Paro e fico perplexa. Sim meu Deus,ele é importante ! Em meio a todos aqueles carros, as buzinas, aos gritos , a fumaça, ao trânsito. Finalmente, finalmente alguém se deu conta. O mundo parece estar surdo e essa busca insana por algo tão fluído, tão idiota continua. Mas ele continua aqui, firme e forte. Aqui, ali e em todos os lugares. O amor.


A pichação está em todos os lugares, Avenida Angélica, Vila Madalena. Fico me perguntando quantas pessoas não pararam chocadas ou no mínino perplexas ao lerem a frase. É como se ela nos desse uma chacoalhada, um empurrão, um toque certeiro. No mundo onde nós vivemos, nessa grande metrópole chamada São Paulo, um lugar onde se dá mais valor as aparências do que a essência, talvez seja realmente necessário que alguém saia por ai lembrando as pessoas: Ei! Você ! O amor é importante,não se esqueça dele!

Inspirador é simplesmente a palavra que define essa pequena frase.

Então, eu me junto ao coro e grito também: “O amor é importante. porra”

05 junho 2009

Rotina morta


Seis horas da manhã, ele acorda e olha instintivamente para o lado. A mulher está ali como todos os dias. Beija-lhe a testa e senta-se na cama. Escova os dentes, penteia os cabelos, toma café quente e amargo. Veste seu uniforme e segue rumo a mais um dia de trabalho. Dá sinal ao ônibus lotado, ele para. Paga o cobrador, recebe as moedinhas de troco, passa pela catraca e permanece dentro do ônibus lotado e em movimento. Ali os pensamentos vão lhe tomando conta, pensa na mulher e nos filhos. Pensa no trabalho, no almoço, no jantar. Pensa na discussão que havia tido com a esposa no dia anterior e promete a si mesmo tentar melhorar o humor. Pedir-lhe desculpas acompanhadas de beijos carinhosos. Ele a amava, amava o fato de Deus ter lhe abençoado com uma família linda, dois filhos saudáveis e uma esposa admirável que fazia às vezes de uma, duas, três mulheres no mesmo dia. As vezes sentia-se cansado com a vida que levava, com todos os problemas e contas para pagar, mas logo os pensamentos ruins iam embora junto com uma ducha quente ou uma boa noite de sono.

O ponto onde ele deveria descer se aproximava e ele deu sinal de parada ao motorista. Com grande dificuldade atravessou a multidão de pessoas amontoadas no automóvel e desceu. A avenida cheia de carros, pessoas e buzinas. Olhou dentro de uma loja e viu enfeites natalinos. Então era dezembro e era natal. Como poderia ter se esquecido? Pensou nos presentes dos filhos... Não tinha dinheiro ao menos para um café na esquina. Muitas contas a pagar, muitos problemas pendentes. Daria um jeito, sim ele daria um jeito. Ele sempre dava. Queria apenas ver o sorriso na rechonchuda cara de seus pequenos, os olhos cintilando com um novo brinquedo. O semáforo ficou verde e ele atravessou mergulhado em todos os pensamentos, tão submerso que não viu um automóvel em alta velocidade vir em sua direção. Não pode ver nem ao menos a morte, passar rápida e astuta entre os pedestres, as bicicletas, os carros e os caminhões para lhe buscar. Ainda pensava na esposa e nos filhos.

Um passante que viu a cena com os olhos chocados seguiu pensando. Pensando em como a vida pode estar tão próxima da morte, um fio de linha fina as liga. Quatro passos e então acontece.
A morte, a vida. Duas coisas que o passante e eu queremos compreender.

31 maio 2009

Questionamentos sobre o amor no trânsito

Eis que outro dia me vi presa em um congestionamento em plena Dutra. Não, eu não estava de carro, mas sim de ônibus. O que eu aliás, considero mil vezes pior. Eu ali, presa naquele belíssimo congestionamento, as buzinas entupindo os meus ouvidos, a fumaça de todos aqueles escapadores enchendo meus pulmões. Bom, daí em diante eu simplesmente não consegui mais ler o bendito texto que eu precisava ler para a faculdade. Maldição! Pensei eu.

Trânsito, buzinas, fumaça e duas mulheres sentadas no banco da frente que não paravam um minuto de falar. Respiro fundo. Ok, só mais 30 minutinhos e eu saio desse ônibus maldito. Quando me dei conta estava prestando atenção na conversa das duas mulheres. Ambas de meia idade, conversando alto e distraidamente. Elas conversavam sobre o amor, achei engraçado. Amor? Aqui, na Dutra? Meu Deus era quase uma profanação! É óbvio que eu me interessei pelo assunto. A mulher loira que aparentava ser a mais velha, dizia: “-Porque amor não é isso... Não amiga, não é! O eu sinto por ele não é amor não... amor é desejar, é sentir saudade, é querer estar junto. Amor era o que eu sentia pelo Jurandir aquele cafajeste (...)” e outras coisas mais que eu, sinceramente, não consegui entender por conta do barulho insuportável do motor do ônibus e daquelas buzinas infernais.

Meu Deus, pensei, por que RAIOS as pessoas idealizam TANTO o amor? Tá. Então aí vai o meu recado para você minha querida mulher do ônibus: Amor não é nada disso o que você disse. Aliás, pensando melhor, até pode ser que seja no inicio. Porém, desculpe-me te dizer mas nesse caso não é amor, mas sim paixão. E paixão, passa rápido assim como vem muito rápido. Amor é algo que vai sendo construindo aos pouquinhos tijolo por tijolo, uma hora com um abraço, outrora com uma palavra de carinho. Sabe o Jurandir, esse cafajeste que você disse que foi o único homem que amou? Pois é, aquilo sim não tinha a menor chance de ser amor. Talvez fosse desejo, mas amor, amor mesmo eu acredito que não seja. Minha querida, pra que idealizar tanto as pessoas? Para que idealizar tanto o amor? Idealizar é um passo certeiro rumo à infelicidade. É um fato simples e muito compreensível: nada nunca é do jeito que desejamos que seja.

16 maio 2009

Desvendando banheiros femininos

Existem mitos com relação aos banheiros femininos. Mitos estes divulgados pelos nossos querido namorados,ex namorados,paqueras,rolos,peguetes,pais,avôs e afins. A curiosidade masculina os faz imaginar coisas incríveis como as idéias de que nós só vamos ao banheiro para ligar para alguém,tramar planos maléficos, falar mal do mundo inteiro, enfim.Essas loucuras masculinas que a maioria das pessoas já deve conhecer de cór e salteado.


Bom queridos homens.Aí vai a mais crua verdade.

Banheiros femininos não são como os masculinos, anatomias diferentes implicam em banheiros diferentes. Acredite, fazer xixi de pé é um dom. Essa é o única característica que me faz sentir inveja de um homem e que me fez dizer está frase milhões de vezes :"Meu Deus porque não me fizeste homem ?".Resumindo, nós não sabemos nem podemos fazer xixi em pé. Vocês já devem desconfiar disso, certo?Ok.


Agora imagine um banheiro público. Imaginou ? Pense em quantas pessoas já sentaram naquelas privadas, pense em quantas bactérias,vírus e doenças uma pobre mulher indefesa pode pegar apenas se sentando em um desses pequenos mundos bacterianos. Pensou?Pois bem, como mamãe nos ensinou nós não sentamos nele, quer dizer, pelo menos a grande maioria das mulheres não se senta neles e eu me incluo nessa parcela. O que fazer se não podemos aliviar nossas necessidades em pé? Acrobacias é claro!


Sua digníssima namorada chega ao banheiro do shopping, lotado por sinal, cheio de mulheres super apertadas. Ela espera um bom tempo até que consegue finalmente entrar em um. Ela entra. Coloca a bolsa em algum encosto ou gancho, se não tem ela a coloca pendurada no pescoço mesmo. Abaixa as calças rapidamente tentando segurar o amiguinho xixi que está desesperado para sair. A posição é a mais desconfortável possível: semi-agachada ela consegue finalmente o seu objetivo. Ela não pode se sentar, mas o instinto selvagem que a move diz a ela que se sente.O corpo vai relaxando,relaxando...mas NÃO ela não pode relaxar. Ela deve ficar semi-agachada para não encostar nenhuma parte do corpo naquela privada imunda. Serviço completo. Ela procura o papel higiênico. Se tiver sorte ele estará lá, mas se ela for como eu, azarada, ele terá terminado. A solução é pegar aquele lencinho de papel na bolsa e usar...fazer o que?Quem é mulher sabe bem do que eu estou falando.

Depois a mesma luta, levantar as calças, tirar a bolsa pesada do pescoço que por sinal,já estava deixando um grande estrago vermelho no lindo pescoçinho de sua namorada. Ela dá a descarga e sai finalmente do banheiro enfrentando outras mulheres com caras indignadas de: "por que você demorou tanto?”. Enfrenta outra fila para lavar as mãos, dá uma retocada no batom e penteia levemente os cabelos. Ela sai do banheiro com uma cara de alivio ao encontro do namorado que nesse meio tempo já tinha ido ao banheiro, tomado água e lido Os Lusíadas inteirinho. Ele diz furioso: "Nossa,porque você demorou tanto?”.

Esta aqui a sua resposta.


Sim, esta é a nossa odisséia. Agora vocês entenderam ?

03 maio 2009

As histórias que nunca irão acontecer

Ela chega em casa, já é tarde. A casa silenciosa evidencia e simboliza toda a sua vida.Vida vazia, cheia de muita bagunça e de coisas para fazer. Joga as chaves do carro sobre o sofá e corre para a cozinha.O dia todo só havia comido algumas besteiras e o que mais queria naquele instante era comer qualquer coisa. Abre a geladeira em busca de algo. Nada. Apenas uma maçã abandonada e uma caixa de leite vazia a habitam. Na despensa ocorre o mesmo. Ela apenas pára e pensa quando foi a última vez que havia ido às compras.Não consegue se lembrar.

Despensa vazia e tempo nenhum de sobra. Resolve ir ao supermercado e abastecer a despesa de seu pequeno apartamento naquele momento, antes que outra ocupação tomasse conta de sua mente e a fizesse esquecer novamente de si e de sua vida. Vida de solteira que lhe garantia algumas mordomias mas que a enchia de tarefas duras e chatas, como esta. Segue para o supermercado pensando no tamanho da sua solidão. Pensamento abafado pela música que toca no rádio do carro, música que a faz lembrar de sua adolescência, de seu ex-namorado, um passado distante e remoto. Distante por sua escolha. Aquela era a vida que ela sempre quis levar. Pelo menos até então. Até aquele momento. Pensou em como seria sua vida com alguém ao seu lado. Alguém para dividir os momentos bons e também os ruins, alguém que acalmasse a loucura frenética de sua alma.


Lá estava ela, entre os detergentes e desinfetantes, a procura do produto melhor e com o preço mais em conta.O olhar ávido passa rápido pelas prateleiras cheias, até encontrar um desinfetante em promoção. Levanta a mão e pega-o rapidamente, sem perceber que outra mão busca o mesmo objeto. Ela assusta-se, pensava ser a única pessoa que iria ao supermercado em plena noite de quarta-feira.Olha para o lado.Seu olhar encontra um belo rapaz, olhos castanhos. Sorriso branquíssimo emoldurado pela morenisse amendoada. Eles riem com a situação que se não fosse trágica, (ambos no supermercado, numa quarta-feira a noite, comprando desinfetantes baratos) seria cômica. Ele sente vontade de conversar com a moça que acabará de conhecer. Afinal, deveriam ter algo em comum. Ou quem sabe esta seria apenas mais uma dessas coincidências corriqueiras da vida? E quem é que sabe? O que eu sei e o que ele sabe, é que ainda havia muito o que comprar e pouquíssimo tempo, sem contar a luta contra o sono que lhe rompia vagarosamente. Foi assim que terminou. Sem nem ao menos começar.


Sorriram, um sorriso de cumplicidade mútua. Ele lhe deu o desinfetante, pegou outro,colocou em seu carrinho e seguiu o seu caminho de compras. Ela fez o mesmo.O que importa se ambos estavam sozinhos? O que importa se precisavam de alguém para conversar? O que importa, afinal, se ambos eram tão parecidos e gostavam de tantas coisa iguais? Nada. As coisas só acontecem quando devem acontecer. É a vida no final das contas. E, pensando bem, a sua vida, a minha vida e a vida de todo mundo é cheia de histórias e amores que poderiam gerar lindas histórias de amor, belíssimas amizades,mas que nunca sequer chegarão ao seu início.

29 abril 2009

Vermelho

Desde pequenina sou assim: impetuosa, indecisa, princesa de um reino repleto de tempestades em copos de água. Nos momentos obscuros, nos vãos e vácuos que envolvem as ações eu fecho meus olhos. E eu mergulho dentro de mim, procurando nas paredes sólidas da minha alma algo que me satisfaça. Não satisfaz. Nada satisfaz. Não satisfaz por indecisão. Afinal,o que eu quero encontrar? Eu não sei responder.

A indecisão. Uma palavra que sempre, desde sempre rondou minha vida. Uma cena peculiar:

- E então qual é o vestido que você quer usar ? O amarelo ou o vermelho ?

Eram dois passos para que a maldita da dúvida me invadisse,e fosse tomando conta de pedaços do meu ser.Nesse momento,tudo o que eu mais desejava,tudo o que eu mais queria possuía nome: um vestido laranja.

Foi assim que eu cresci. De pequena princesa a rainha de toda uma vida. Sempre desejando o meio do caminho, o alto do muro, o laranja. Mas não há outro jeito, existem momentos em nossas vidas em que se deve ser vestido amarelo ou vestido vermelho, jamais um vestido laranja.

Sinto que está hora chegou para mim e que este é o momento no qual estou vivendo. E enfim,qual vestido devo escolher? Hoje tomei minha decisão. Vermelho. Enfim este é, pura e simplesmente, o momento mais vermelho da minha vida.

Minha vida.Vida vermelho-vivo,vida vermelho-incandescente.

11 abril 2009

Amores possíveis

Repetia para si mesma : “meu coração tá ferido de amar errado” e queria um amor para esquentar seus pézinhos gelados durante a noite,queria as mãos que se tocam durante os dias nublados ,as vozes que se pedem e as bocas que se saciam.Mas ela não sabia o que era amar não...não sabia apenas pelo simples fato de não querer saber.Pois é,existem muitas pessoas assim : reclamam,reclamam porque sempre estão sozinhas mas são elas mesmas quem fogem do bendito do amor.E o amor ,você já deve saber,não é desses que insistem não.Você não quer abrir a porta para ele ?Pois muito que bem,ele vai embora sem dizer um Aí .


Há poucos dias encontrou uma pessoa que parecia ser um pedacinho da alma que lhe faltava,algo que alguém muito sádico lhe arrancou anos atrás.A outra asa para auçarem vôo juntos ,a sua metade perdida.E quando enfim,se descobriu tão parecida com ele,teve medo.Pensavam tão igual,agiam tão igual,queriam coisas tão parecidas que ela foi tomada pelo terror de não saber lidar consigo mesma.Fugiu.Fugiu como o diabo foge da cruz.Engraçado,quanto mais ela se esgueirava pelos cantos afim de ficar longe dele,mais e mais eles se aproximavam.Os olhos,a pele,a vida.E então,afinal,tinham sido feitos um para o outro.

Enfim,a garota abriu seus olhos e não conseguiu mais fechá-los,tratou de se esquecer dos amores impossíveis vividos no passado,dos amores mal resolvidos,das trevas que envolviam sua vida amorosa.Teve finalmente a sorte de um amor tranqüilo,com sabor de fruta mordida como já disse o poeta.Tratou de agarrá-lo com unhas,dentes,braços e pernas.

Abriu,escancarou as portas de sua vida para que o sentimento tomasse conta de cada parte de seu ser.Entre,sente-se e fique a vontade meu amigo pródigo.

10 abril 2009

Quem quer ser um milionário ?


Essa dica vai para quem gosta de cinema e quer conhecer mais sobre a cultura indiana.É o filme "Quem quer ser um milionário?",filmado em Mumbai,com atores locais,verbas restritas e ganhador de 8 Oscars,como melhor filme,diretor,roteiro adaptado,fotografia,mixagem de som,edição,trilha sonora e canção original.

Uma história emocionante que gira em torno dos personagens Jamal,Latika e Salim.Nossos "Três mosqueteiros".Não conto mais porque se não estrago a história mas,caso você tenha resolvido assistir,se prepare para muitos sorrisos seguidos de rios de lágrimas.Concluindo,lindo e cativante são as duas palavras que resumem perfeitamente este filme!
RECOMENDADISSÍMO ;)

Ah,e a trilha sonora do Essência Namastê hoje é dele,com "Jai Ho" do cantor indiano Rahman...
Beiijos a todos !

01 abril 2009

Palavras desconexas


Olhou-o de longe.Pode vê-lo caminhando lentamente ao seu encontro.A luz do dia tocava a sua face,os olhos inertes viajando por algum lugar indefinido.Quando acordou de seu mundo imaginário e finalmente a viu,acenou rapidamente com um sorriso entreaberto nos lábios,sem deixar de caminhar em direção a garota.Ela parada,meio sem jeito,meio feliz ,um tanto confusa.Acreditava que tantas formalidades não cabiam mais no vão de tudo o que acontecera entre eles.

A luz que tocava a pele dele era a mesma que incendiava seu coração. Iluminava tudo por dentro e irradiava em todos os sentidos e direções.O que carregava dentro de si era tão forte que,quem possuía sensibilidade suficiente para poder enxergá-la simplesmente ficava cego.Foi o aconteceu com ele.E ele teve medo,teve medo do tamanho daquele sentimento,e fugiu.Não fugiu para muito longe,pois lá estava ele,tão perto e tão longe dela.

Com um sorriso no rosto lhe desejou Bom dia.Dentro dela uma tempestade silenciosa de sentimentos,vontades e loucuras secretas.Imaginava,repetia para si mesma palavras desconexas.Ama-me como eu te amo.Beija-me ,toma-me com tua.Seja meu hoje e sempre ! Usa-me,toca-me,cria-me,destrua-me,construa-me,amaldiçoa-me,enfeitiça-me,impressione-me,veja-me,vista-me,abraça-me.A sua extremidade sou eu.
Ele lhe respondeu Bom dia,e sentou-se ao seu lado.
Quantas loucuras cabiam na mente de ambos?Definitivamente Muitas.

30 março 2009

Colorindo por aí


Vamos fechar nossos olhos e imaginar um futuro bom ?Vamos.
Vamos brincar de ser feliz? Dançar na chuva ?Criar constelações e mundos próprios
imaginários?Inventar músicas,gargalhar até não poder mais respirar.
Vamos conhecer o mundo ou tentar tocar o céu com a ponta dos dedos?Enxuga essas lágrimas,vem comigo.Vem,vem comigo,traga com você essa luz imaginária que te segue e a Via Láctea que carrega dentro de ti. Trás o seu universo e funda-o ao meu.
Me de suas mãos, vamos fugir daqui! Eu quero paz,eu quero vida,eu quero sede,eu quero mais,eu quero menos,eu quero cores para colorir os cenários cinzas que existem por ai.Eu quero felicidade,eu quero fantasia,eu quero mar,eu quero números inteiros e suas milhões de ambigüidades. Seja um mistério para mim,hoje,amanhã e sempre.
Eu quero palavras suavemente tocando o céu da minha boca.Eu quero mãos que se cruzam,quero borboletas por todo o meu corpo,quero livros sem final,músicas,vozes,canções e melodias.

Vem,vem comigo.Porque se contentar com algo tão pequeno ?
Ah, cobre minha boca de beijos, me carregue em teus braços e me diga...Sim! Me diga que será infinito ?!

27 março 2009

As limitações


Os símbolos me assustam desde pequenina.Me metiam pavor goela a baixo e hoje,sinceramente,me irritam.

Eu tinha medo do Papai Noel,do coelhinho da Páscoa,de qualquer ursinho grande,colorido e sorridente que podia se mover.E isso,era motivo para rios de lágrimas,gritos de pavor.Até do Zé Gotinha (Lembra-se dele ?Aquela coisinha esquisita que ficava dando abraços e dançando na porta dos postos de saúde durante os dias de vacinação) eu morria de medo.Acho que eu sabia,no fundo,no fundo,que ali dentro havia alguém se fazendo passar por outra pessoa .E isso,para uma criança,definitivamente não era legal.Ainda mais para uma para uma criança esquisita como a que eu era ...


A única parte boa do natal eram os presentes,pois eu detestava todos os Papais Noeis e eles infelizmente estavam por todos os lados! A páscoa então,era uma verdadeira "via crucis" para mim. Muito mais quando eu me dei conta que todos eram mentirosos.Um bando de mentirosos!Papai Noel usava uma roupa de inverno em pleno verão brasileiro,barba e até toca!Definitivamente uma pessoa assim não era de verdade.Zé gotinha não era uma gota.Nem de água,nem de vacina,nem de nada.Nem um Zé ele era...descobri isso em um belo dia,quando fui tomar minhas gotinhas de vacinação e vi o "pavoroso Zé Gotinha" sem a cabeça de sua fantasia.Ele era uma mulher !Mulher,da pra acreditar?E o Coelhinho da páscoa que nem ovos botava?!Muito menos ovos de chocolate.


Quantas coisas passam pela cabeça de uma criança?Eu penso nisso todas as vezes que vejo um pequeno,pois na minha infância,eu sei bem,milhares de pensamentos rodeavam meus dias,noites e sonhos.


Pensando melhor,eu tinha medo mesmo era do que essas figuras simbolizavam .

Afinal,por que definir alguém como algo?Se as pessoas no final das contas são um conjunto de tudo (ou de nada ?!).

Eu sabia ,eu sei bem que ninguém é inteiramente e definir pessoas é limitá-las.Para que se limitar se podemos ser algo tão infinito ?

21 março 2009

Sinta-me


Eu o vejo com um olhar gelado,inóspito,frio,inerte.
Como atravessar a camada de poeira e gelo que te envolve?Mergulhar em ti,rumo a caminhos desconhecidos,desabitados.
Toque meu rosto com as suas mãos frias.Eu senti tanto amor um dia.Mas agora eu sou pedra,sou penhasco,sou abismo.
Mergulha também em mim,sinta o que eu sinto,veja o que eu vejo.
Sinta-me.
Toca o meu coração com os seu olhar indiferente.Veja,sinta ele pulsar uma doce sinfonia.Ele pulsa por você.Eu tive tanta alegria um dia.
Ouça a voz que grita dentro de mim,atende-a.Eu grito por ti.Passa a mão em meus cabelos,prove do cheiro de algo que um dia foi e que jamais será novamente.
Ahh...eu te quis tanto um dia !

15 março 2009

O [estúpido] amor


Você está sozinho.Aliás você e o resto da torcida do Corinthians.Quer um amor para esquecer da dor que carrega na alma ou quer um apenas por ter,para amar e ser amado.Enfim,você quer ser um dos sorteados dessa coisa audaciosa,incompetente e atrevida que é o amor .


Enquanto você devora um pacote inteirinho de pipocas em frente a tv o telefone toca.Poderia ser tanta,mas tanta gente.Você logo imagina que é aquela garota linda que conheceu na semana passada,durante um festa esquisita.Atende todo animado:


-Alôôôô ?

-Alô querido.Aqui é a mamãe,tudo bem com você ?Que voz mais animada!Viu o passarinho verde hoje ?

-Ah mãe é você. (Já desanimado demais para fingir qualquer animo falso)

-Nossa já acabou o animo?Ah,já sei.Você estava esperando alguma ligação...

-Não mãe,estava aqui vendo Tv...

-Não vai sair esse final de semana ?

-Não,to cansado hoje...

-Só liguei para saber como você estava,e pelo jeito,você não está nada bem.É um verdadeiro milagre você não querer sair ! Quer que eu vá aí,ficar com você?

-Não mãe,obrigado.Vou ver se ligo para alguém para combinar algo.

-Ok querido.Mamãe te ama.Beijos.


Você se sente a pessoa mais boba do mundo por ficar animado pensando que era a tal garota.Quem mais poderia ser além da sua mãe?Nesse momento ela é a única pessoa que te diz "te amo" e se preocupa com você.Desliga o telefone e pensa para quem ligar.Algum amigo?Não,você não quer mais um daqueles programinhas bobos de sempre.Queria alguém que te acompanhasse,fizesse companhia.Não alguém que fica o tempo todo caçando mulher na balada.Pensa na tal menina que conheceu na festa esquisita.Ligar para ela?Será ?Não,melhor não.Ela também com certeza não iria aceitar.Sua ex namorada?Não... pior ainda!Voltar ao passado já é pior que ataque suicida.


Então,você percebe que amor não atende por hora marcada.Não vem nas horas em que você esta desejando amar.Vem quando quer e ponto final.Ele pode chegar quando você esta na fase mais galinha e cafageste que um homem pode atingir.Ou quando está totalmente desiludido,desconfiado e com medo de sofrer novamente.O amor pode estar passando abatido por você agora,nesse instante.

Afinal,porque é que diabos,o amor NUNCA vem na hora certa ?


Agora,justo agora que você está lindo,cortou o cabelo e comprou roupas novas.Agora que você resolveu ser alguém na vida,começou a trabalhar e a estudar também.Agora que você lavou o carro,cortou a barba mal feita que insistia crescer em seu rosto impaciente.Agora que seu coração esta necessitando de alguém mais do que nunca.


O amor pode estar em qualquer lugar,você pensa.Então,o jeito é direcionar o olhar rumo a todos os sentidos : norte,sul,leste e oeste.Ele pode estar no supermercado,no banco,no estacionamento do seu apartamento,na sua rua,na faculdade.Ele pode estar ao seu lado neste exato momento,enquanto você lê o que eu escrevo.O amor esta em todos os lugares.Acredite.E é você quem não o procura direito.


As lições já estão dadas.O amor esta em todos os lugares.Mas,existe um porém.Ele é totalmente imprevisível e bipolar.Não espere que a sua "futura namorada" diga que te ama quando você mais precisa,quando esta louco da vida com o trabalho ou com um amigo.Ele virá durante um congestionamento de final de tarde,enquanto vocês conversam sobre qualquer besteira e escutam músicas irritantemente tranquilas.Ou espere que ela,num sábado a noite,deixe de ficar com a amiga depressiva suicida para ficar com você.

Afinal ,idealizar para quê?As pessoas são o que são no final das contas !


O amor tem dessas meu amigo e é,com a mais absoluta certeza,coisa de sorte.O jeito é aceitá-lo como é ou fechar as portas do seu coração para sempre.

A escolha fica ao seu critério.Boa sorte.

08 março 2009

Eu não sou pra casar


Hoje ,dia 8 de março.Um dia muito especial para nós mulheres.Parabéns à todas nós,Marias,Joaquinas,Rosárias,Reginas,Ivones,Patricias,Camilas,Amandas,Marianas,

Heiloísas,Brunas,Suzanas,Milenas,Antonias....


Andei pensando muito sobre isso : ser mulher.Crescer,conhecer alguém especial,casar,ter filhos.E é sobre esse tema que resolvi tratar hoje.Afinal você não deve ter noção de quantas e quantas vezes eu já ouvi essa bendita frase : "Eu sou pra casar meu bem !".

Aham, tudo bem.Você pode ter sido desenhada e programada para o casamento,mas eu me convenço cada dia mais que eu não sou.Eu estudo mais que um camelo(não que camelos estudem é só força de expressão!),tenho mil e uma coisas a fazer,inclusive neste momento.Tenho vida própria e não espero que ninguém me dê a sua de bandeja.Se for para me dar,que seja de mansinho não assim de cara "-Toma minha vida que ela é tua!" ou se não,eu me assusto e saio correndo.


Teimosa,orgulhosa,muitas vezes dona da razão.Estou sempre correndo atrás do futuro.Acordo todos os dias descabelada,mal humorada e mesmo que você fale comigo eu não vou responder.Não me entenda mal,eu acordo num transe e é preciso escovar os dentes,lavar o rosto e pentear os cabelos para que eu saia dele.E por fim,saio do transe ainda mal humorada.Por este motivo,por favor,fale pouco comigo de manhã,apenas o necessário.


Minha vida é regida de acordo com o que eu acho correto, com o que eu acho bonito e não de acordo com o que você e o resto do mundo pensam.Seja lá quem quer que você seja.Tenho uma fé inabalável daquelas que não desabam nem com um furacão.Esperança no amanhã para mim é fundamental.Humor sarcástico,meio negro,meio obtuso,meio irônico.Mania de perfeição,cara de menina e alma de mulher.Sabe como é,engana muita gente ! Meiga,cheia de vida a ser vivida,antipática,feliz,transtornada..Eu sou eternamente uma doce dualidade.Afinal,sou mulher.E sou mulher de carne e osso como a grande maioria das mulheres por aí !Tenho minhas vontades,tenho meus sonhos e vou a luta!

Eu sou isso essencialmente.


Ótimo você é pra casar.Eu não.Ainda não.

Mas,quem sabe um dia ?A pessoa especial eu já conheci ...



04 março 2009

Pensamentos de uma tarde de verão




Mulher.Mulher cansada de ser mulher.Cansada de um cabelo com humor e vida próprios,de unhas a fazer,lições a estudar.Cansada de cólicas,de menstruação todo mês.Mulher aprendendo a dirigir,lidando com a sua própria falta de coordenação motora,com vontade de ver o mar em cima das pedras com o sol lhe molhando a pele.Mulher cansada de ser vista como pernas,bocas e caras.Mulher de saco cheio dos homens em todas as suas variações.Querendo gritar,cantar,sonhar ...
Mulher cansada de pedir príncipes e receber apenas os cavalos.Cansada de recomeçar.
Mulher,apenas mais uma mulher.Apenas isto.
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Se quiser me esquecer,só te peço uma coisa : me esquece bem devagarzinho.Assim,aos pouquinhos para que assim,quem sabe,não doa tanto .

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Eu fecho os olhos,mergulho dentro de mim,procuro nas paredes da minha alma algo que me satisfaça.Não satisfaz.Nada satisfaz.

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Sonhei com você esta noite,entre livros e histórias,entre o passado e o presente lá estava você.Cuidadosamente desajeitado.Tatuado pelo destino para fazer parte da minha vida.
Afinal,por que você esta aqui ? Esta ali e está em todos os lugares?
Alguém pode me responder ?

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Tenho um segredo para te contar...tentaram me aprisionar,tentaram cortar minhas asas.Tentaram me manter intacta dentro de uma caixa de vidro.Mas eu continuo aqui.Veja,livre como sempre.Cheguei a uma conclusão : é difícil aprisionar os que tem asas.

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24 fevereiro 2009

Gritos da vida


O dia estava quente lá fora e o sol entrava ardiloso por entre a janela escancarada e a cortina de algodão. Deitada no sofá ela olhava para o teto branco.Levantou-se, para ver o que acontecia na rua.Olhou pela janela.Lá fora crianças empinavam pipas coloridas,brilhantes no céu sem nenhuma nuvem.Uma risada cortava o ar,alta,aguda.Mulheres conversavam,carros buzinavam vez ou outra.Barulheira, risadas que enchiam todo o ar sufocante típico do verão.Era a vida sendo vivida,era a roda gigante rodando mais uma vez.


Dentro da casa, tudo era calmo e tranqüilo. Mas dentro dela,nada era ameno.Uma tempestade estava a lhe perturbar a alma.Debruçada na janela passou alguns minutos,encarando pessoas que por ali passavam sem sequer ser notada.Submersa em um mar de pensamentos desconexos,diluída no calor tórrido e seco que subia da rua.


Não estava mal e não estava bem. E era o “não-estar” que a preocupava. Ela não estava, não se achava, perdida dentro de si mesma.


Fechou os olhos, queria sentir o cheiro de vida, ouvir o som que ela gritava. Naquele momento,ela sabia,havia alguém em algum lugar vivendo mais do que ela. E isso a doía por dentro. Doía fundo na alma.


O calor era sufocante e ela resolveu tomar um copo de água, não antes de observar que na janela presa entre um vidro e outro, estava uma mosca. Sabe-se lá a quanto tempo. Sentia-se encarcerada em uma prisão transparente,assim como a mosca. A mosca tentava escapar dali de qualquer forma, batendo insistentemente contra o vidro, produzindo um barulho irritante.Depois de algum tempo de luta ela desistiu e ficou ali,parada dentro de sua doce prisão transparente. Pensou que a grande maioria das pessoas eram como aquela mosca, lutavam para se livrar do vidro que encoberta a vida. Das amarras que nos prendem e nos impedem de viver. A grande maioria bate a cabeça contra o vidro, faz barulho, confusão, mas tem o mesmo fim do pequeno inseto que desistiu de viver,abdicou sua vida.


Ela olhou para a mosca.Suas asinhas azuis e o corpo negro.Pensou em abrir a janela e deixar que ela escapasse dali para viver o resto de sua vidinha em outro lugar.Porém,pensando melhor disse bem baixinho,susurrando: “-Não.Você não merece viver.Você desistiu.”

Saiu de perto da janela ,estarrecida com o que acabara de concluir.Estava decidida a viver a partir dali.Não desistir como a pequena mosca.Não só cheirar e ouvir a vida mas sim senti-lá na palma das mãos e no toque da pele.Não apenas ouvir os gritos da vida na janela de sua casa mas também gritar a plenos pulmões lá fora.

14 fevereiro 2009

Beijando Sapos

Tá.
Você está cansada desses caras que ficam contigo na balada durante trinta minutos e esquecem da sua existência. Está cansada de procurar por aí. Suas amigas já te apresentaram todos os amigos, primos, conhecidos. Pretendentes possíveis e impossíveis. Rolou de tudo. Desde loiros lindos com um amendoim no lugar do cérebro até dentuços que tinham uma conversa daquelas de deixar qualquer mulher zonza. Mas não rolou, eu sei como é. Você não namorou com nenhum deles. Quando tem que acontecer acontece, quando não tem que acontecer não acontece e ponto final. E você já está cansada de beijar sapos.

Você quer um cara legal, nem precisa ser bonito. Que goste das mesmas coisas que você, te entenda, compreenda.
Chega um momento em que você nem tem mais vontade de sair tamanho é o seu pessimismo de encontrar seu príncipe encantado. Suas amigas te ligam chamando para uma festa super maneira, mas não você não está nem um pouco afim.

Resolve ir até a padaria, comprar uma bela barra de chocolates, pão doce e refrigerante.
"-Já que namorar ta tão difícil, então vamos comer” Você pensa. Chegando lá, você dá de cara com um homem lindo, alto, moreno. Um Deus grego de cima a baixo. Daí, você se lembra que está horrível, que nem penteou os cabelos antes de sair de casa. Faz de conta que nem o vê. Mas você o viu, o viu mais do que nunca. Olha de novo e ele sorri pra você. Sim, ele sorriu pra você. Da pra acreditar? Ele é balconista. Nossa balconista! Você nunca viu um balconista tão lindo quanto ele.

Agora você está feito uma boba olhando para cara dele e ele te perguntando quantos pães você vai querer. Acorda garota! Ele está te perguntando quantos pães você quer. "-Ah me dá oito pães e o seu coração. Lindo!" Você tem vontade de dizer. Mas deixa pra lá, você jamais seria tão ousada assim.

A partir deste dia você irá todos os dias, religiosamente à padaria. Essa rotina continuará durante dois meses. Você vai à padaria, o balconista lindo te olha e sorri , você sorri de volta, pede os pães e vai embora. Sua casa começa a ficar cheia de pães velhos, aos quais sua mãe transformará nas mais diversas modalidades da culinária, tais como pudim de pão, bolo de pão, mousse de pão, salada de pão.... BLÉÉÉ chega de pão! Tá na hora de você falar com o cara não acha?

Até que num belo dia você decide finalmente falar com ele. Ou vai ou racha. Promete a si mesma que nunca mais irá comer pão em sua vida. Além dos quilinhos a mais sua dignidade esta em jogo. Você chega a padaria, ele lhe dá um sorriso lindo e pergunta quantos pães vai querer, você quer tanto qualquer puxar um assunto com ele, você quer tanto ser sua princesa e que ele seja o seu príncipe, você quer tanto tantas coisas. Porém, a única coisa que você consegue dizer é o numero de pães. Malditos pães! Tantos caras e você se apaixona justo por ele. Já chega.


Ok, já chega de amor platônico. Está decidido. Amanhã nada de pão, nada de balconista que não te dá a mínima bola. Amanhã você vai cair na balada, namorar com o primeiro cara que aparecer... Nem que ele tenha um amendoim ou uma castanha-do-pará no lugar do cérebro, igualzinho ao primo da sua melhor amiga. Aliás, o tal padeiro nem deve ser tão sensacional assim. Deve ser apenas mais um sapo. E de sapos você já está farta! Quanto mais sapos que não sabem, sequer, da sua existência.

No dia seguinte o balconista sente sua falta. Ele também queria muito falar com você, mas simplesmente não conseguia. Entretanto, hoje finalmente, ele tinha tomado coragem. Ia perguntar seu nome, pedir seu telefone, te ligar, convidar você para sair. Ah, e só para que você saiba o nome dele é Miguel. Ele não é um príncipe encantado, muito menos um sapo. Ele é apenas tudo o que você sempre desejou de alguém.

Quantos amores nem começam por falta de coragem?