28 março 2010

Conversa de bar


Garçom desce um homem perfeito e põe na conta. Um homem encantador... Cheio de qualidades e também de defeitos, pois é desses que eu gosto mais. A perfeição que eu cito, não é aquela digna dos príncipes encantados, que vem num cavalo branco, com uma espada nas mãos. A perfeição a qual me refiro é a perfeição real, digna de um homem pelo qual eu me apaixonaria, e tem muito mais a ver com atitudes do que com me salvar de um castelo amaldiçoado ou me livrar de um sono eterno. Então, faça o que eu digo, Seu garçom, faça o favor. Desça duas doses de homens perfeitos, uma para mim e uma para minha amiga ao lado. Para ela, desça um homem sincero e dedicado, que ligue no outro dia, que abra a porta do carro, que pague o cinema, o jantar e o cafezinho sem exigir a metade. Que namore, noive e case. Ela me disse que gosta de homens cavalheiros, já eu não acho que isso seja cavalheirismo, mas sim máscara de lantejoula que tem prazo de validade... Mas enfim, meu Caro Garçom, cada um com o seu ideal de perfeição certo?!

Para mim? Ah, pra mim traga um homem desses, cheio de qualidades admiráveis e defeitos decepcionantes. Esses que você encontra em qualquer lugar, pois no fundo, no fundo, todos são dessa forma por dentro. Não sou muito exigente não, já disse que não creio nos príncipes encantados. Ele só deve ter paixão no olhar, delicadeza nas palavras, amor entre as mãos. Quero um desses homens que te digam a verdade sempre, mas que ainda sim, guardem os seus segredos. Afinal, nem tudo é feito para ser revelado... Um que preserve algum mistério no olhar, ainda que seja segunda-feira de manhã. Algum que nas situações mais estressantes e complicadas, ainda tenha guardada uma gargalhada sincera e boba, típicas das pessoas que encaram a vida de peito aberto. Alguém com a alma livre e nua, que goste de dançar e não tenha receio do que as pessoas irão dizer. Que goste de ler, que pense em conhecer o mundo, que não limite a vida ao seu próprio umbigo. Pode ser? Ei, ei seu garçom, traz dose dupla tá? Pois hoje eu quero me embriagar de um homem assim!

13 março 2010

Exagerada

Eu amo fazer uma tragédia, colocar algumas vírgulas a mais, algumas pausas, exagerar na intensidade. Aliás, pra falar a verdade, eu sempre amei exagerar, não tenho vergonha alguma de admitir! Se é genético ou não, não sei, mas desde pequenina sou assim. Digo: “Minha cabeça hoje está prestes a explodir!” Quando na verdade a dor de cabeça passa com um comprimidinho e dez minutos de sono; “Ontem bebi litros de álcool.” Quando, na verdade, bebi uma taça e meia de vinho; “Não tenho roupa alguma!” Mesmo que o meu armário esteja vomitando peças; “Hoje eu só quero morrer!” Quando uma boa noite de sono e umas boas linhas de escrita podem realmente me acalmar.

Já ouvi algumas pessoas dizerem que o meu problema é esse, sou intensa demais em tudo o quê costumo fazer. Será problema ou solução? Já pensei tanto nisso... Porque sim, ser dessa forma pode causar efeitos colaterais adversos. Da mesma forma que pode te trazer coisas boas, igualmente pode trazer coisas ruins. Mudar? Sim, há sempre um jeito, mas todos que optam por este caminho podem estar sujeitos a duras penas. Afinal, mudar a essência pode causar danos irreparáveis. Há algumas semanas, lendo o livro “Clarice,” me deparei com uma frase da própria Clarice Lispector que me tocou: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Acredito que isso seja uma verdade absoluta. Todos nós somos compostos de defeitos e qualidades, erros e acertos, que formam o nosso interior, que nos identificam e caracterizam. Faz sentido querer mudar as colunas de uma edificação? É claro que não! Corremos sempre o risco de perder toda uma construção, que levou anos para ser concluída. É por essas e por outras que eu sempre defendo a autenticidade, a personalidade, a essência única que cada ser possui. Que nós sejamos essência, sempre! E que vivamos sim com os nossos exageros ou com a falta deles...




Esse post só poderia ter uma trilha sonora: ♫ Exagerado - Cazuza ♫
"Eu nunca mais vou respirar, se você não me notar. Eu posso até morrer de fome se você não me amar... E por você eu largo tudo: Vou mendigar, roubar, matar. Até nas coisas mais banais, prá mim é tudo ou nunca mais! Exagerado, jogado aos teus pés eu sou mesmo exagerado. Adoro um amor inventado..."

10 março 2010

Mergulhar mais fundo

Levantou-se da cama num estalo. Como ousara dormir por tanto tempo? Tantas coisas a fazer, tantas decisões a serem tomadas. Olhou na janela, já era noite. Havia dormido muito mais do tinha imaginado. O dia havia sido aterrorizante, no trabalho milhões de tarefas, problemas pendentes, brigas... Em casa a situação não era diferente. Fechou as cortinas claras, lá fora um frio ar noturno soprava. Acendeu as luzes e caminhou até um grande espelho. Olhou-se, penteou lentamente os cabelos com os dedos. Olhou profundamente o reflexo de seus olhos. Pensava na vida, nas dificuldades que enfrentava dia após dia, nos amores improváveis, nas fantasias absurdas que ousava criar sozinha no quarto. Os olhos vivos, dois universos presos num mar denso e profundo.

Pensava: desconfio do improvável, tenho medo do impossível. Fiz promessas que nunca poderei cumprir. Tenho saudade do que eu não vivi, nostalgia de palavras que não foram ditas. Sou descontroladamente repentina. Estou feliz e de repente entro em um transe preocupante, os olhos abertos, fixos, trágicos, inócuos na escuridão. Hoje ele me perguntou no que penso, eu não sei o que pensar. Ah, minhas palavras... Elas são ásperas, o meu choro chega a ser preocupante. Minha vida? Na opinião de todos é boa o suficiente para que não haja uma única reclamação. Meus sonhos são impossíveis, meu gosto duvidoso. Minha alma é cheia de espinhos, as pessoas tem medo de mergulhar. Eu tenho medo de me entregar... Minhas convicções são erradas, a minha fé inadequada. As minhas palavras são vazias, minha voz é fraca e os meus complexos são inteiros. O meu calor não é suficiente, o meu tom poderia ser melhor. Meu carinho? Oco. Meus passos? De ninguém. Minha vida é simplesmente sem direção. Meus sentimentos são absurdos, complexos, amplificados ao extremo. Minha tristeza é drama, minha risada é forçada. Minha vida pura ilusão.

Sabe? Tenho andado de mãos com a solidão. Uma solidão acompanhada... Tenho muitas pessoas ao meu lado, mas poucas sabem realmente o que eu sinto. Quero um mar de águas límpidas, eu quero mergulhar mais fundo. Quero me sentir limpa dessa vida aterrorizante, desse poço sem fim. Minha alegria? Ah, essa anda escassa, fraca, sem cor.

Voltou-se ao mundo real. Olhou mais uma vez o reflexo de seus olhos no espelho e disse baixinho: Eu quero mergulhar mais fundo.

02 março 2010

Eu ainda posso ouvir

Ela passa quieta por ele, ele passa quieto por ela, mas mesmo assim, ainda dá para ouvir, de longe, o barulho que eles fazem. Uma sinfonia de corações que batem gelados, estúpidos, inertes ao desejo que pulsa mais alto e forte que a indiferença. O silêncio definitivamente já não cabe no vão das coisas que disseram um ao outro. E todas as verdades imutáveis que haviam dito, aquelas que saíram vibrantes pela boca, em semanas foram transformadas em pequenas mentiras. Não ela não o odiava, sim ele ainda a queria, sim ela ainda o amava. Era inquestionável. Eles ainda se gostavam. No entanto, naquele momento, eles se cruzam calados, os olhos baixos. Um silêncio perturbador e tudo o quê mais desejavam possuí nome: um ao outro.


Quando diziam que não dava mais, que não se queriam, a frase saia embaçada, estranha, deformada. Não, aquilo tudo não era verdade. Eles se queriam mais do que nunca, queriam sim as mãos que se tocam, os beijos, abraços, as mentiras bobas, os olhares, o afeto. Queriam brigas de ciúmes novamente, ter um choro calado por uma única palavra. Talvez, quem sabe, o amor entre eles tivesse deixado de ser menos amor para continuar sendo amor, para continuar a viver, para sobrevivente a mais um naufrágio. Assim, ele passa mudo por ela, ela passa calada por ele, mas eu ainda ouço... Sim, eu ainda posso ouvir o enorme barulho que eles fazem.