29 agosto 2009

Quando acabou

Quando acabou, desistiu de acompanhar os naufrágios e decidiu caminhar sozinha. Queria esquecer todo aquele sentimento em algum lugar, até que um dia ao encontrá-lo, audaciosa lhe perguntasse: Ei, você ainda esta aí? Engoliu o choro, transformou a dor em passatempo, construiu um grosso e forte muro de proteção em torno de si. Afinal, as coisas, todas elas, possuíam um começo, um meio e um fim. E ali estava o fim, era evidente. Custou a entender isso, mas um dia, viu a estrada se bifurcando e então teve certeza: era hora de construir algo novo, caminhar por um longo trecho sozinha e deixar todas aquelas lembranças guardadas em um canto qualquer.


Até que um dia, distraída em uma avenida movimentada, viu um vulto passar próximo de si. A mesma forma esguia de sempre, a mesma expressividade, o mesmo andar, os mesmos olhos desconfiados. Porém, ele nem de longe possuía o mesmo peso que um dia havia possuído. Ele era a mesma pessoa, ela não. Incrível como aquela sensação não lhe causava mais nada. Nem metade do pavor que teria sentido antes, nem um terço de todo aquele amor que um dia, desesperada, desejou calar. Nada. Apenas um sentimento resignado, calmo, consciente de que todo aquele sentimento desenfreado havia se transformado em calma brisa de verão.

Foi só então, apenas a partir dali, que ela teve certeza: havia acabado.

21 agosto 2009

Flor de maio

Sentou-se no sofá branco olhando fixamente para algo. Olhava, mas não via nada, perdida em algum lugar dentro de si. Os olhos parados, duas grandes órbitas presas em outra dimensão, perdidas na imensidão de toda uma vida... Quando saiu do transe, colocando-se novamente dentro do mundo real, percebeu um pequeno ramo flores em um jarro de água. Logo ali, na estante de sua sala. Eram algumas daquelas flores de maio, lindas, exuberantes e delicadas ao mesmo tempo. Alguém havia lhe dado, alguém que ela nem ao menos se lembrava. Poderia ter sido qualquer pessoas, mas isso realmente não importava. Importava apenas, que aquele pequeno ramo de flores de maio era realmente especial, era não, havia se tornado especial naquele exato momento. Ela havia se dado conta, ali submersa na correnteza sem direção de sua alma que aquelas flores não haviam desabrochado em maio, mas sim em agosto.

As flores estavam ali há tanto tempo, mais de uma semana e o ramo ainda não deixava escapar nem um tantinho de sua vida e graça. Verde, imponente quase que implorando, esperando por alguém que lhe desse nova terra, esperando por alguém lhe devolvesse a vida. Flores de maio em sua estante da sala. Exalando e não exalando vida, um daqueles milagres acidentais da natureza, como um lindo arco íris no asfalto.

Ela era uma flor, ela era uma flor de maio e como a flor, precisava de nova terra, necessitava de um ponto de partida para novamente recomeçar. Pegou o ramo de flores delicadamente e foi até a varanda de sua casa. Pensava em plantá-lo em algum em algum vaso. Era isso o que ela também pretendia fazer a si mesma a partir daquele momento. Nova terra, nova vida.

02 agosto 2009

Mil Mulheres

Ela se fazia de mil mulheres.
Pela manhã, com o sol, era trabalhadora, dedicada, construtiva. Fazia acontecer. Fazia dinheiro, fazia inimigos, fazia chover se fosse preciso. E de tarde, quando a tristeza batia à porta, quando uma enorme angustia lhe subia garganta a cima, chorava. Não chorava por isso ou por aquilo. Chorava porque uma ânsia de viver o que tinha para ser vivido, porque uma dor tomava conta, pouco a pouco de cada pedaço de seu corpo. Chorava porque uma gastura, um nó na garganta lhe dominava e arrebatava. Então, tentava limpar o rosto e acendia seu cigarro. Sofria por alguns instantes, o tempo do cigarro acabar. Tomava um café, colocava-se em frente ao espelho e ajeitava os cabelos, limpando os resquícios ameaçadores daquilo que havia tomado seu tempo precioso. Recompunha-se. Afinal, não possuía tempo para se lamentar no meio daquela selva de batom na qual vivia e ela não queria, não podia, chorar no ônibus. Em casa os filhos a esperar, o fogão a esperar, o marido a esperar.

A angustia vinha do querer mais, do desejar mais. Sim, ela desejava mais. Queria não ter medo, nem vergonha de ainda desejar. Queria primeiras vezes outras vezes, um primeiro beijo outra vez. Queria conhecer um novo lugar, extreiar algo, ter novas sensações dia após dia. Queria ar, não ser sufocada por aquelas milhões de exigências e obrigações como ser a melhor funcionaria do mundo, a melhor filha do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor mãe do mundo. Queria por em prática as idéias que nunca teve coragem de realizar, se divertir fazendo coisas inesperadas. Ao chegar em casa escondia então o lado insatisfeito da vida, o seu lado transgressor, pois não podia, não queria chorar na frente dos filhos.
Ela mais do que ninguém sabia que para viver era necessário parecer e muitas vezes não ser. Continuava, seguindo sua vida, as vezes até se esquecendo de quem realmente era, do que realmente desejava no meio de tantas mulheres dentro de si, de tantas insatisfações, de tantas personagens que era obrigada a encenar dia após dia.

E quem é que esta satisfeito com o que têm? Todos queremos sempre mais, esperamos sempre mais da vida.
Ainda bem!