11 novembro 2010

Você NÃO é uma princesa



Mulher cresce mesmo com aquela ideia fixa de príncipe encantado. Não adianta. A cada dia eu me convenço mais de que contos de fadas só servem para nos tornar ainda mais iludidas com relação ao amor. Sim mais, pois quem é mulher sabe: já temos uma predisposição a crer que o carinha que conhecemos ontem a noite é O Homem das Nossas Vidas.

O ideal de perfeição varia muito: para algumas mulheres homem perfeito é aquele que simplesmente a aceite da forma como ela é, sem reclamações injustas ao tempo que ela gasta indo ao cabeleireiro, ou por sua barbeiragem no trânsito. Para outras - as mais sonhadoras e românticas - é o homem que vem para modificar a sua vida, para transformar água em vinho, óleo em vinagre, o sertão em mar. Príncipe encantado: montado em um cavalo branco, traje a rigor, cabelos ao vento. Ele fala: "Venha, suba em meu cavalo, minha linda donzela". Ela sobe, se agarra ao príncipe bonitão e eles são felizes para sempre (Ok, essa idealização possui algumas variações. Uma amiga minha imagina tudo como descrito acima, mas o carinha, ao invés do traje a rigor, veste uma jaqueta de couro e capacete reluzente, enquanto no lugar do cavalo branco porta uma moto envenenada).

Não importa. Queremos o ideal. Mesmo que nós mesmas não sejamos perfeitas. É então que a historinha acaba e você cai do cavalo (ou da moto). Porque é óbvio, não existe a perfeição. Única e exclusivamente porque é nosso, é da nossa natureza: ser imperfeito. Quem pensa, quem é de verdade e não tem medo de ser, sabe do que eu falo. Hoje você pode desejar ter um marido, uma família linda, um cachorro e uma casa na praia como naquela "comédia romântica" idiota que você assistiu tempos atrás devorando um pote de sorvete. E amanhã você pode, muito bem, escolher viajar o mundo, escrever um livro em algum lugar distante e adotar um filho, como mãe solteira. Por que não? Eu sou assim, você leitora, é assim e com certeza o cara perfeito pra você também é. E convenhamos, mudar de ideia sempre e tão drasticamente não chega nem perto da perfeição mencionada nos contos de fadas, onde a princesa trancafiada em uma torre, espera durante anos e anos a chegada do seu amado. Mudamos com frequência, somos metamorfoses ambulantes como diria Raul.

Agora, pense bem, será que não se trata disso a tão falada perfeição? Não será ser perfeito, ser exatamente da forma que você é, sem medo, culpa ou privações? Será que aquele cara do seu trabalho, aquele que usa óculos e arrasta um avião por você, não é o homem da sua vida? Por que não? Ou sei lá, aquele do seu cursinho de inglês, o caladão, que gosta praticamente de tudo o que você gosta, dos mesmos livros, das mesmas canções estranhas e do mesmo seriado. Porque não? A perfeição exige em troca a mais perfeita perfeição. Você não é uma princesa. Pare de procurar por príncipes encantados!


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Nota: Esse post é dedicado à uma amiga, que de tanto procurar príncipes encantados, têm uma coleção enorme de amores platônicos.

E o post só poderia ter uma trilha sonora: ♪ Raul Seixas - Metarmofose Ambulante ♫

♪♫ "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Eu quero dizer, agora o oposto do que eu disse antes. Eu prefiro ser essa metarmofose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo, sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou. Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou, se hoje eu te odeio, amanhã lhe tenho amor, lhe tenho horror, lhe faço amor eu SOU um ator." ♫♪


01 novembro 2010

Do latim, Liber.

Restituia-se aos poucos. O fato era que ainda não sabia ser sozinha. Era como se, depois de anos de companhia, ela simplesmente não existisse sozinha. Precisava realmente o ser, mas o que lhe era ser? Quem era ela no final do cálculo matemático? Convencia-se cada dia mais que um dos maiores problemas em estar todo o tempo acompanhada, era não saber estar sozinha. Não dar valor a solidão. E solidão tem lá suas qualidades, sabia disso. Queria crer na possibilidade de erguer seus olhos e seguir. Apenas um par de passos na areia. O que desejava ainda não possuía nome. Era mais que liberdade: era voar sem destino, era ter consciência do que tinha sido e do que era. Ter pleno conhecimento de si, autoconsciência de sua alma e de seus desejos mais profundos. Uma urgência dominava-lhe a alma. Precisava de liberdade, sim de liberdade.

Era composta por anseios, por urgências que vinham sempre fora de hora. E, naquele momento, ansiava por solidão, por liberdade, por frases sem nexo. Queria que uma vez em seu vida, nada fizesse sentido, queria acreditar que bastava colocar algumas roupas na mochila e seguir viagem. Tudo aquilo era passível de tocar? De fazer sentido? Desejava bastar-se, sim, satisfazer-se apenas consigo. Afinal, parava e refletia, somos assim, sozinhos. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos. Era mais que necessário saber estar só. Ancorava seus pensamentos a um ponto de partida e um ponto de chegada. Traçava mil planos no ar, enquanto desenhava as curvas sinuosas de um vôo livre e libertador.