24 fevereiro 2009

Gritos da vida


O dia estava quente lá fora e o sol entrava ardiloso por entre a janela escancarada e a cortina de algodão. Deitada no sofá ela olhava para o teto branco.Levantou-se, para ver o que acontecia na rua.Olhou pela janela.Lá fora crianças empinavam pipas coloridas,brilhantes no céu sem nenhuma nuvem.Uma risada cortava o ar,alta,aguda.Mulheres conversavam,carros buzinavam vez ou outra.Barulheira, risadas que enchiam todo o ar sufocante típico do verão.Era a vida sendo vivida,era a roda gigante rodando mais uma vez.


Dentro da casa, tudo era calmo e tranqüilo. Mas dentro dela,nada era ameno.Uma tempestade estava a lhe perturbar a alma.Debruçada na janela passou alguns minutos,encarando pessoas que por ali passavam sem sequer ser notada.Submersa em um mar de pensamentos desconexos,diluída no calor tórrido e seco que subia da rua.


Não estava mal e não estava bem. E era o “não-estar” que a preocupava. Ela não estava, não se achava, perdida dentro de si mesma.


Fechou os olhos, queria sentir o cheiro de vida, ouvir o som que ela gritava. Naquele momento,ela sabia,havia alguém em algum lugar vivendo mais do que ela. E isso a doía por dentro. Doía fundo na alma.


O calor era sufocante e ela resolveu tomar um copo de água, não antes de observar que na janela presa entre um vidro e outro, estava uma mosca. Sabe-se lá a quanto tempo. Sentia-se encarcerada em uma prisão transparente,assim como a mosca. A mosca tentava escapar dali de qualquer forma, batendo insistentemente contra o vidro, produzindo um barulho irritante.Depois de algum tempo de luta ela desistiu e ficou ali,parada dentro de sua doce prisão transparente. Pensou que a grande maioria das pessoas eram como aquela mosca, lutavam para se livrar do vidro que encoberta a vida. Das amarras que nos prendem e nos impedem de viver. A grande maioria bate a cabeça contra o vidro, faz barulho, confusão, mas tem o mesmo fim do pequeno inseto que desistiu de viver,abdicou sua vida.


Ela olhou para a mosca.Suas asinhas azuis e o corpo negro.Pensou em abrir a janela e deixar que ela escapasse dali para viver o resto de sua vidinha em outro lugar.Porém,pensando melhor disse bem baixinho,susurrando: “-Não.Você não merece viver.Você desistiu.”

Saiu de perto da janela ,estarrecida com o que acabara de concluir.Estava decidida a viver a partir dali.Não desistir como a pequena mosca.Não só cheirar e ouvir a vida mas sim senti-lá na palma das mãos e no toque da pele.Não apenas ouvir os gritos da vida na janela de sua casa mas também gritar a plenos pulmões lá fora.

14 fevereiro 2009

Beijando Sapos

Tá.
Você está cansada desses caras que ficam contigo na balada durante trinta minutos e esquecem da sua existência. Está cansada de procurar por aí. Suas amigas já te apresentaram todos os amigos, primos, conhecidos. Pretendentes possíveis e impossíveis. Rolou de tudo. Desde loiros lindos com um amendoim no lugar do cérebro até dentuços que tinham uma conversa daquelas de deixar qualquer mulher zonza. Mas não rolou, eu sei como é. Você não namorou com nenhum deles. Quando tem que acontecer acontece, quando não tem que acontecer não acontece e ponto final. E você já está cansada de beijar sapos.

Você quer um cara legal, nem precisa ser bonito. Que goste das mesmas coisas que você, te entenda, compreenda.
Chega um momento em que você nem tem mais vontade de sair tamanho é o seu pessimismo de encontrar seu príncipe encantado. Suas amigas te ligam chamando para uma festa super maneira, mas não você não está nem um pouco afim.

Resolve ir até a padaria, comprar uma bela barra de chocolates, pão doce e refrigerante.
"-Já que namorar ta tão difícil, então vamos comer” Você pensa. Chegando lá, você dá de cara com um homem lindo, alto, moreno. Um Deus grego de cima a baixo. Daí, você se lembra que está horrível, que nem penteou os cabelos antes de sair de casa. Faz de conta que nem o vê. Mas você o viu, o viu mais do que nunca. Olha de novo e ele sorri pra você. Sim, ele sorriu pra você. Da pra acreditar? Ele é balconista. Nossa balconista! Você nunca viu um balconista tão lindo quanto ele.

Agora você está feito uma boba olhando para cara dele e ele te perguntando quantos pães você vai querer. Acorda garota! Ele está te perguntando quantos pães você quer. "-Ah me dá oito pães e o seu coração. Lindo!" Você tem vontade de dizer. Mas deixa pra lá, você jamais seria tão ousada assim.

A partir deste dia você irá todos os dias, religiosamente à padaria. Essa rotina continuará durante dois meses. Você vai à padaria, o balconista lindo te olha e sorri , você sorri de volta, pede os pães e vai embora. Sua casa começa a ficar cheia de pães velhos, aos quais sua mãe transformará nas mais diversas modalidades da culinária, tais como pudim de pão, bolo de pão, mousse de pão, salada de pão.... BLÉÉÉ chega de pão! Tá na hora de você falar com o cara não acha?

Até que num belo dia você decide finalmente falar com ele. Ou vai ou racha. Promete a si mesma que nunca mais irá comer pão em sua vida. Além dos quilinhos a mais sua dignidade esta em jogo. Você chega a padaria, ele lhe dá um sorriso lindo e pergunta quantos pães vai querer, você quer tanto qualquer puxar um assunto com ele, você quer tanto ser sua princesa e que ele seja o seu príncipe, você quer tanto tantas coisas. Porém, a única coisa que você consegue dizer é o numero de pães. Malditos pães! Tantos caras e você se apaixona justo por ele. Já chega.


Ok, já chega de amor platônico. Está decidido. Amanhã nada de pão, nada de balconista que não te dá a mínima bola. Amanhã você vai cair na balada, namorar com o primeiro cara que aparecer... Nem que ele tenha um amendoim ou uma castanha-do-pará no lugar do cérebro, igualzinho ao primo da sua melhor amiga. Aliás, o tal padeiro nem deve ser tão sensacional assim. Deve ser apenas mais um sapo. E de sapos você já está farta! Quanto mais sapos que não sabem, sequer, da sua existência.

No dia seguinte o balconista sente sua falta. Ele também queria muito falar com você, mas simplesmente não conseguia. Entretanto, hoje finalmente, ele tinha tomado coragem. Ia perguntar seu nome, pedir seu telefone, te ligar, convidar você para sair. Ah, e só para que você saiba o nome dele é Miguel. Ele não é um príncipe encantado, muito menos um sapo. Ele é apenas tudo o que você sempre desejou de alguém.

Quantos amores nem começam por falta de coragem?

12 fevereiro 2009

Cenas de um filme colorido


Existem lugares que me lembram da minha vida, minha canção.

Todas as letras, palavras e personagens tatuados num livro de memórias esquecido num canto qualquer.

Cartas e bilhetes, fotos e sorrisos, braços que se cruzam, histórias que se encontram. Alguns já esquecidos, outros ainda vivos, pulsando na minha memória. Porém,existem pessoas que a gente não esquece nem quando quer esquecer. O primeiro beijo, o primeiro namorado, a primeira desilusão, um cartão desbotado, o primeiro dia de aula, nomes desenhados em uma árvore e que hoje não dizem mais nada. Um abraço,uma frase,um passeio ou um filme. Caminhos mal desenhados por alguém. Desenhos desbotados,quase apagados de mim.

O destino que eu mudei,cenas de um filme colorido que eu não consigo esquecer. 
Sabe,eu nem entendo o porquê, mas entre todos os amigos e namorados, entre todas as novelas e romances, entre todos os detalhes e os sorrisos de você eu não esqueço mais. De você não esqueço jamais.

11 fevereiro 2009

O tempo se encarrega de nos apagar


A luz ainda esta a acesa,a janela fechada,a cama desarrumada e eu nem ligo mais.

A porta entreaberta,livros jogados por todos os lados e para mim tanto faz.Um gole de água que desce rasgando a garganta,arrebatando e diluindo pedaços de mim .
O meu ouvido se entope de amor e de buzina.Um amor que esmaga o coração dia após dia.

Eu não vou voltar atrás e nem pedir para você voltar.O que foi feito,foi feito.Tanto faz agora se quem errou fui eu ou foi você,eu já estou retornando.Na tv passa um programa chato sobre culinária e eu nem me importo em mudar.Deixa como está.

Tem horas em que é melhor deixar tudo como está.Deixa que o tempo se encarrega de nos apagar e a dor logo vai passar.

10 fevereiro 2009

Não é nada

Não é nada não.

É só uma vontade enorme de chorar tudo o que se perdeu,tudo o que já passou,tudo o que podia ser e não foi.
Acredito que não seja nada.Só uma dor que não passa ,que não sara,que não cicatriza.
É só um vazio que parece não ser preenchido por nada nem ninguém.
Eu continuo vazia por dentro,eu quero estar plena,completa.Eu sigo desejando.Algo que se funda dentro de mim,se funda nesse buraco vazio e imenso aqui dentro de mim.Eu sigo vazia.
Mas não se preocupe não...Eu me acostumo.
Está tão frio aqui,e não adianta fechar as portas.O frio ainda continua a entrar pelas frestas e fechaduras.