04 janeiro 2010

Águas limpas e profundas

Muito pior do que se sentir perdida, sem direção, é perder-se dentro de si mesma. No alinhavar dos pensamentos, no emaranhado de pedidos e objeções, na forma líquida e robusta dos desejos.


Não há nada pior do que afogar-se no rio de idéias que brotam de dentro e não ter força, nem vontade, de se agarrar a uma delas para submergir. Seu corpo submerso, pesado, antiquado, em uma vazão de águas limpas e profundas. Os olhos abertos dentro da água e você olha maravilhada, estagnada ao ver passar alguma cena incrustada naquelas águas. Um primeiro beijo nervoso e abobado passa devagar, lhe acena. O livro “Reinações De Narizinho” passa pelos seus olhos rapidamente. Passa uma rosa vermelha. Uma música toca, ela lhe remete à infância. Um cheiro lhe toma os sentidos e rapidamente você pensa que não é possível cheirar de baixo da água. Porém ali tudo é possível de se tornar realidade, tudo é maravilhoso, tudo tem cor de pedra ônix. Ali é você no mais profundo que se pode tocar, é o seu íntimo, a sua fortaleza, o lugar onde ninguém chegou, nem nunca poderá chegar.