28 agosto 2010

A Liberdade e os Cavalos

Quando eu era pequenina, me lembro de certa vez, ter ido à uma fazenda no interior de Minas Gerais. Minha família paterna é toda de lá, mas eu, como menina de cidade, nascida e criada no coração de São Paulo, não conhecia sequer aquele cheirinho de mato verde, de terra molhada, quanto mais os animais. Na verdade, eu conhecia sim, mas convenhamos, existe uma grande diferença entre os ver através das grades de um Parque Zoológico e os ver de pertinho, podendo tocá-los, senti-los, os observar e os tornar verdadeiramente reais em nossa memória. Acredito que tenha sido exatamente essa proximidade que criou um dos meus maiores laços, uma das minhas maiores paixões, aquela que ainda hoje, prevalece comigo.

Eu tinha então meus 5 ou 6 anos e um pavor absurdo de qualquer tipo de animal, incluindo gatos e insetos. Depois do almoço, meu pai me levou para conhecer a fazenda. Observamos as vacas e os bois pastarem por um longo período. Conhecemos o galinheiro e suas galinhas, que pertenciam a um irritado e desconfiado galo. Meus olhos brilharam ao ver o majestoso peru e suas lindas penas. Andamos pelo pomar, comemos algumas jabuticabas... Foi então que eu o vi. Era impossível não vê-lo. Um pouco afastado, próximo à uma grande mangueira, lá estava ele. Meu coração de criança batia, estúpido e gelado, uma ânsia me dominava por completo. O que era aquele lindo animal? Grande, majestoso, delicado, sua musculatura parecia ser desenhado por algum grande desenhista. Suas pequenas e finas patas pareciam não pertencer à aquele grande corpo. Sua crina, lisa e comprida, adornava toda aquela beleza delicada. Perguntei então o que era, e fui informada que era um cavalo. Sim eu conhecia cavalos, mas aquele não se parecia com nenhum dos que eu havia visto na televisão e nos livros infantis. Então, meu pai disse para nos afastarmos, pois aquele era um Cavalo sem doma. Perplexa, insisti naquele assunto durante semanas. Sem doma? Por que domar um animal daqueles? Que o deixassem livre, ele não era feito para aquilo?

Lembro-me de seus enormes olhos, que me olhavam frios, inertes. Ele me via e eu enxergava através deles. Foi nesse dia que minha paixão por esses animais começou, sua calma selvagem me arrebatou, mas acima de tudo, sua inquestionável liberdade. Soube mais tarde de Cavalos Selvagens, raças que viviam na Europa e Ásia e me identifiquei ainda mais com o bicho. Deus, pode haver algum animal mais parecido comigo? Confesso que nunca me atrevi a montar um. Minha paixão se limita a admiração e, na minha opinião, a liberdade extremamente pura e natural desses bichos deve ser respeitada.

Falando nessas memórias, outras me vieram a mente, como a de que certa vez, na escola, fomos orientados a desenhar o animal que gostaríamos ser. Entre os meninos a professora pode observar grandes dragões, poderosos leões. Já entre as meninas, coloridas borboletas, pássaros de todas as cores. Quando chegou minha vez mostrei meu cavalinho marrom, rabiscado desajeitadamente pelas mãos da criança que eu era (e quem sabe? Ainda sou). Minha professora indagou: - Um Cavalo? Que diferente, por que um Cavalo querida? Respondi sem pestanejar: - Oras, porque sim. Ele é tão lindo e tão livre. Minha opinião ainda hoje é a mesma.

24 agosto 2010

Ela


Riscou o fósforo e acendeu o cigarro canelado. Ele exalava doces notas de baunilha, menta e canela. A fumaça subia pesada, em direção à varanda do quarto. Sentou-se e deixou o cigarro queimando entre os dedos, enquanto olhava-a dormir. Estava ali, deitada entre os lençóis, a causa de todos os questionamentos, de todas as dúvidas, de todo o sofrimento, de toda a felicidade. Seus olhos cerrados possuíam ainda certo ardor, um tom questionador, um mistério que perturbava. Seus cabelos negros jogados no travesseiro branco pareciam transtorná-lo alem do normal. Amava aquela mulher, amava-a mais do que ousara um dia crer amar outra pessoa. Detestava-se muitas vezes por não saber controlar aquilo que lhe dominava a alma, que arrebatava seu corpo, que lhe fazia perder a serenidade, o eixo, a calma, que deturpava sua visão e obrigava-o a enxergar tudo mais belo, mais ingênuo, mais puro. Seus sentimentos. Ela. Ele já não tinha domínio sob seu coração.

Justamente ele, que um dia afirmou não crer na existência do amor. Mas as suas palavras, as suas opiniões, dividiam-se em antes e depois Dela. E aquelas, ditas por um homem cego (ou talvez um homem que enxergasse demais) haviam se transformado em fumaça, poeira. Ali estava o amor, encarnado Naquela pequena criatura, arraigado em sua alma.

Por vezes, odiava-a por quase um minuto, mas depois, sentia subir por sua garganta, frio e lânguido, ele, o perturbador amor. Depois, a amava mais e mais. Mergulhava cada dia mais fundo em uma experiência de prova, doava-se gratuitamente, engolia seu orgulho. Se Perguntava o que, exatamente, diferenciava Aquela mulher de todas as outras que um dia passaram por sua vida. Não sabia responder, sabia apenas que, quando deu por si, estava submerso naquele sentimento que tinha cor de pedra âmbar. Entregava-se conscientemente a algo que lhe consumia dia após dia. Como desejar algo que nunca será seu realmente? Como encarar, frente a frente, aquilo que você fugiu durante toda uma vida, e que um dia pensou não existir? Como aceitar calmamente a resignação de sua alma? Ela pareceu movimentar-se, deu um breve suspiro e abriu os olhos lentamente. Ela o olhou surpresa, sorriu. Seu sorriso era aterrador. Ele sorriu de volta. O cigarro ainda queimava entre seus dedos quando ele se dirigiu, calmamente, em direção à Ela. Esqueceu-se dos questionamentos e voltou a se alimentar daquilo que mais o consumia: Ela.