04 outubro 2009

Sinestesia


Deitada na cama ela virava de um lado para o outro, buscando a forma mais confortável para dormir. Na manhã seguinte acordaria cedo para viver mais um dia rotineiro, trabalho, faculdade, livros, trânsito. Porém, não havia jeito: o sono calmo e acolhedor não vinha de forma alguma. Ajeitou os travesseiros, jogou com força os lençóis ao ar e estes responderam calmamente, caindo levemente sobre seu corpo.

Todas as noites, antes dormir, ela se lembrava e se esquecia de tudo o que havia acontecido durante o dia. Era necessário seguir em frente e de alguma forma tocar a vida. Depois do sono, um novo dia iria acontecer e quem sabe também uma nova história? Sim, era realmente nisso que ela acreditava, esta era sua âncora, mas naquela noite tudo era diferente. Os olhos abertos na escuridão viam cenas de um passado remoto, fotografias recortadas, sorrisos, olhos assustados, bocas, lembranças, frases, pessoas, cartas e perfumes. O momento era totalmente sinestésico: ela cheirava momentos, ouvia gostos, sentia sons. Uma tempestade de sensações ondulava e fazia estremecer cada pedaço do seu corpo. Subitamente surgiu dentro dela uma saudade absurda de tudo o que não havia vivido. Um enorme vazio tocou fundo sua alma, um sentimento de não-viver, não-sentir ecoava lento e seco dentro de seu coração.

Fechou novamente os olhos: precisava dormir.