24 agosto 2010

Ela


Riscou o fósforo e acendeu o cigarro canelado. Ele exalava doces notas de baunilha, menta e canela. A fumaça subia pesada, em direção à varanda do quarto. Sentou-se e deixou o cigarro queimando entre os dedos, enquanto olhava-a dormir. Estava ali, deitada entre os lençóis, a causa de todos os questionamentos, de todas as dúvidas, de todo o sofrimento, de toda a felicidade. Seus olhos cerrados possuíam ainda certo ardor, um tom questionador, um mistério que perturbava. Seus cabelos negros jogados no travesseiro branco pareciam transtorná-lo alem do normal. Amava aquela mulher, amava-a mais do que ousara um dia crer amar outra pessoa. Detestava-se muitas vezes por não saber controlar aquilo que lhe dominava a alma, que arrebatava seu corpo, que lhe fazia perder a serenidade, o eixo, a calma, que deturpava sua visão e obrigava-o a enxergar tudo mais belo, mais ingênuo, mais puro. Seus sentimentos. Ela. Ele já não tinha domínio sob seu coração.

Justamente ele, que um dia afirmou não crer na existência do amor. Mas as suas palavras, as suas opiniões, dividiam-se em antes e depois Dela. E aquelas, ditas por um homem cego (ou talvez um homem que enxergasse demais) haviam se transformado em fumaça, poeira. Ali estava o amor, encarnado Naquela pequena criatura, arraigado em sua alma.

Por vezes, odiava-a por quase um minuto, mas depois, sentia subir por sua garganta, frio e lânguido, ele, o perturbador amor. Depois, a amava mais e mais. Mergulhava cada dia mais fundo em uma experiência de prova, doava-se gratuitamente, engolia seu orgulho. Se Perguntava o que, exatamente, diferenciava Aquela mulher de todas as outras que um dia passaram por sua vida. Não sabia responder, sabia apenas que, quando deu por si, estava submerso naquele sentimento que tinha cor de pedra âmbar. Entregava-se conscientemente a algo que lhe consumia dia após dia. Como desejar algo que nunca será seu realmente? Como encarar, frente a frente, aquilo que você fugiu durante toda uma vida, e que um dia pensou não existir? Como aceitar calmamente a resignação de sua alma? Ela pareceu movimentar-se, deu um breve suspiro e abriu os olhos lentamente. Ela o olhou surpresa, sorriu. Seu sorriso era aterrador. Ele sorriu de volta. O cigarro ainda queimava entre seus dedos quando ele se dirigiu, calmamente, em direção à Ela. Esqueceu-se dos questionamentos e voltou a se alimentar daquilo que mais o consumia: Ela.

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