Criava uma sereia na banheira. Trabalho, não dava nenhum, só
a aquisição dos peixes com que se alimentava. Mansa desde pequena, quando
colhida em rede de camarão, já estava treinada para o cotidiano da vida entre
azulejos.
Cantava. Melopeias, a princípio. Que aos poucos, por
influência do rádio que ele ouvia na sala, foi trocando por músicas de Roberto
Carlos. Baixinho, porém, para não incomodar os vizinhos.
Assim se ocupava. E com os cabelos, agora pálido ouro, que
trançava e destrançava sem fim. "Sempre achei que sereia era loura",
dissera ele um dia trazendo tinta e água oxigenada. E ela, sem sequer
despedir-se dos negros cachos no reflexo da água da banheira, começara dócil a
passar o pincel.
Só uma vez, nos anos todos em que viveram juntos, ele a
levou até a praia. De carro, as escamas da cauda escondidas debaixo de uma
manta, no pescoço a coleira que havia comprado para prevenir um recrudescer do
instinto. Baixou um pouco o vidro, que entrasse ar de maresia. Mas ela nem
tentou fugir. Ligou o rádio, e ficou olhando as ondas, enquanto flocos de
espuma caíam dos seus olhos.
Colasanti,
Marina. contos de Amor Rasgados. Rio de Janeiro: Record, 2010.
