06 agosto 2020

A Consistência do Vapor das Nuvens




Certa vez li que os amores que nunca aconteceram,

os amores impossíveis ou os não-correspondidos 

são os mais etéreos: profundamente puros e belos.  

De fato, me parece que esta inferência incômoda

está repleta de sapiente sabedoria. 


Amores assim partem de um pressuposto:

nunca se tornarão seres concretos. 

Nunca serão entidades vivas e manifestas, 

mas sim, e para sempre, sombras 

fantasmagóricas do que nunca terá sido.


E esse desvario possui uma natureza

tão bela, genuína e precisa. 

Como a precipitação das chuvas

nas terras áridas e estéreis do deserto ou 

como o florescer de Flores de Maio fora da estação.


Velados e incautos em gestos e olhares, 

Como à decifrar silêncios, 

em sobressaltos e corações palpitantes.

Nas palavras de amor nunca ditas 

e nas incógnitas das lacunas e hiatos.


Nascem submersos na obscurandade da imaginação. 

E ali estão fadados a permanecer: 

para sempre reféns da mente de seus criadores. 

Presos à guisa do abstrato mundo 

das nébulas e dos sonhos.


Permanecerão para sempre encobertos, 

nativos dos cosmos ocultos do secretismo  

e da requintada clandestinidade das fantasias.

No mundo das ideias vivem e dançam 

a rodopiar com nossos ideais de perfeição.


Somente existem. 

E isso dá a eles a validade necessária. 

Como uma ideia que simplesmente deixa-se estar em nosso ser

e, volta e meia, nos surpreendemos por encontrá-la tão celestial e incauta 

em algum canto recôndito de nosso ser. 


Amores assim são feitos somente de Amor.

Da matéria pura e bruta do Amor;

de sua essência herética vinda do âmago do ser.

Absconso na extremidade mais profunda 

na qual algum dia alguém ousou tocar. 


A simetria apurada vem da incapacidade de corporificação.

Logo, nascem abençoados pela dádiva de nunca 

se corromperem pela mediocridade da vida cotidiana;

ou pela vulgaridade da realidade, sempre a dar de encontro

com nossas idealizações e expectativas profundas.


Não há nada que possa desvirtuá-lo. 

Nem sequer é necessária a presença do ser amado, 

pois em meio ao devaneio sempre estará nossa utopia:

Quimera desatinada e débil.

Reflexo total e completo de nossa idealização. 


Ser Criado à nossa imagem e perfeição. 

Perfeito, imaterial e verossímil 

prismado para viver sob o domínio

de nossas exiguidades e ausências, 

ficção provinda de nossas carestias insondadas. 


Já não importa se o Ser Criado corresponde

de fato ao Ser Real que gerou a criatura.

Nada disso tem importância ou valor

pois se há imperfeições, estas serão reparadas

ou anuladas pelas possibilidades da imaginação.


Permanecem assim,  incorruptíveis e insuperáveis

pois nunca serão tentados pela sordidez da taciturna realidade.

Nem enfrentarão a compulsiva existência que, 

dia após dia, está obsessivamente a nos alimentar 

e consumir em demasia obstinada. 


Serão por toda perenidade

compostos pela invisibilidade do ar, 

sublimes conceitos do inalcançável 

como a angelitude de uma tormenta

ou a consistência do vapor das nuvens.


Autor: Aline Cabral Malecka