Certa vez li que os amores que nunca aconteceram,
os amores impossíveis ou os não-correspondidos
são os mais etéreos: profundamente puros e belos.
De fato, me parece que esta inferência incômoda
está repleta de sapiente sabedoria.
Amores assim partem de um pressuposto:
nunca se tornarão seres concretos.
Nunca serão entidades vivas e manifestas,
mas sim, e para sempre, sombras
fantasmagóricas do que nunca terá sido.
E esse desvario possui uma natureza
tão bela, genuína e precisa.
Como a precipitação das chuvas
nas terras áridas e estéreis do deserto ou
como o florescer de Flores de Maio fora da estação.
Velados e incautos em gestos e olhares,
Como à decifrar silêncios,
em sobressaltos e corações palpitantes.
Nas palavras de amor nunca ditas
e nas incógnitas das lacunas e hiatos.
Nascem submersos na obscurandade da imaginação.
E ali estão fadados a permanecer:
para sempre reféns da mente de seus criadores.
Presos à guisa do abstrato mundo
das nébulas e dos sonhos.
Permanecerão para sempre encobertos,
nativos dos cosmos ocultos do secretismo
e da requintada clandestinidade das fantasias.
No mundo das ideias vivem e dançam
a rodopiar com nossos ideais de perfeição.
Somente existem.
E isso dá a eles a validade necessária.
Como uma ideia que simplesmente deixa-se estar em nosso ser
e, volta e meia, nos surpreendemos por encontrá-la tão celestial e incauta
em algum canto recôndito de nosso ser.
Amores assim são feitos somente de Amor.
Da matéria pura e bruta do Amor;
de sua essência herética vinda do âmago do ser.
Absconso na extremidade mais profunda
na qual algum dia alguém ousou tocar.
A simetria apurada vem da incapacidade de corporificação.
Logo, nascem abençoados pela dádiva de nunca
se corromperem pela mediocridade da vida cotidiana;
ou pela vulgaridade da realidade, sempre a dar de encontro
com nossas idealizações e expectativas profundas.
Não há nada que possa desvirtuá-lo.
Nem sequer é necessária a presença do ser amado,
pois em meio ao devaneio sempre estará nossa utopia:
Quimera desatinada e débil.
Reflexo total e completo de nossa idealização.
Ser Criado à nossa imagem e perfeição.
Perfeito, imaterial e verossímil
prismado para viver sob o domínio
de nossas exiguidades e ausências,
ficção provinda de nossas carestias insondadas.
Já não importa se o Ser Criado corresponde
de fato ao Ser Real que gerou a criatura.
Nada disso tem importância ou valor
pois se há imperfeições, estas serão reparadas
ou anuladas pelas possibilidades da imaginação.
Permanecem assim, incorruptíveis e insuperáveis
pois nunca serão tentados pela sordidez da taciturna realidade.
Nem enfrentarão a compulsiva existência que,
dia após dia, está obsessivamente a nos alimentar
e consumir em demasia obstinada.
Serão por toda perenidade
compostos pela invisibilidade do ar,
sublimes conceitos do inalcançável
como a angelitude de uma tormenta
ou a consistência do vapor das nuvens.
Autor: Aline Cabral Malecka
