24 julho 2008

Dor torta

Deitou-se na cama desarrumada. O sol batia nos seus olhos devargazinho.Como se estivesse lhe fazendo carinho.Pelo seu rosto rolavam lágrimas e mais lágrimas .Era engraçado como as coisas aconteciam na sua vida,doia lembrar que tudo o que ele procurava era a felicidade.Mas a vida era injusta.Nunca a encontrou.

Talvez fosse mesmo como sua mãe um dia lhe disse:"Quanto mais plantamos desejos menos colhemos felicidade",mas nada conseguia mudar o que ele sentia por dentro.Desejava sempre mais.

Se estava em um emprego sempre desejava um no qual ganhasse mais.Se possuía uma casa,estava sempre se lamentando porque ela era apertada demais,pequena demais,grande demais,vazia demais ou cheia demais.

Vivia se queixando pelos cantos, choramingando aqui e ali, procurando algo que ele jamais encontrara. Jamais.

A felicidade que ele sentia era sempre momentânea. Quando alcançava algum objetivo, logo era tomado por um novo desejo.Um novo desejo de crescer,de conseguir algo ainda melhor do que ele já havia conseguido.Nunca se satisfazia,nada nunca estava bom o suficiente para ele.

Há pouquissímo tempo ele havia perdido duas pessoas,cada pessoa especial a sua maneira.Um irmão e seu avô.

Seu avô. Para ele não era seu avô,era apenas o "Seu Antunes" nunca havia convivido com ele,nunca trocaram palavras carinhosas.Se viam de vez em quando,e quando se viam era o silêncio quem predominava no grande espaço vazio que os separava.

Ele era um homem duro,grosso.Gostava das coisas ao seu modo,sempre.Por debaixo daquela casca dura havia um homem muito sofrido,mas por fora era sempre ele,"Seu Antunes",o homem duro,convicto de suas idéias,certo de suas certezas.Fumava muito, aos maços,3 maços por dia.Quando lhe diziam que aquilo poderia e iria lhe fazer mal ele apenas acentia com a cabeça,virava os olhos para outro lugar e continuava a fumar.

Teve câncer no pulmão.Ficou na UTI durante algum tempo até que a morte finalmente veio lhe buscar.Tirou-o do leito delicadamente.Agora "Seu Antunes" não era mais aquele homem duro,era um menino resignado,conformado de que apenas colhia o que havia plantado durante toda uma vida.

Ele o viu no caixão e pensou :"Seu Antunes" meu avô,quem realmente era o senhor ?Nunca conseguiu responder esta pergunta.

Sentia vontade de chorar mas não chorou ,não chorou nenhuma lágrima,nenhuma.Não conseguia.Ele sentia apenas uma dor paralisada,anestesiada.Não pela morte do seu avô mas sim uma dor por não conseguir senti-la.Era uma dor deficiente,torta.

Não passou muito tempo até que tudo mudou .O seu irmão mais velho,Gabriel,morreu em um acidente de carro.Gabriel,apesar de ser seu irmão mais velho era um homem jovem,viril.Tinha nos olhos a força da vida,da felicidade.Ele sim,considerava,era uma pessoa feliz.Tinha uma esposa linda,dois filhos pequenos,uma bela casa um carro novo.Mas acima de tudo ele tinha o amor de sua esposa,era isso o que ele mais invejava.Toda a sua vida desejou ser como o seu irmão,queria a sua felicidade,a sua força de viver. E agora ?Agora,lá estava ele,morto em um caixão.Ele não sabia mais o que sentir.Poderia ter sido ele ali,morto,não Gabriel.

Duas mortes uma tão perto da outra,uma tão simples e a outra tão dolorida.Seu irmão,seu companheiro,o seu objetivo íntimo.

O sol já não batia mais em seu rosto quando ele abriu os olhos,levantou-se e foi até a cozinha beber algo.Todos os seus conceitos haviam mudado de uma hora para a outra.
Como a vida era engraçada...