28 julho 2008

Incerteza


O céu estava nublado quando resolverão parar para comer alguma coisa. Haviam caminhado pelo parque durante duas horas seguidas,ambos sem dizer uma única palavra.Caminhavam rapidamente,pensando nos caminhos e rumos diferentes que a vida havia lhes dado.Pai e filho.Duas gerações.Roberto e Eduardo.Duas histórias.

Pediram dois lanches, em uma das muitas barracas que havia por ali no parque. Roberto escolheu um lanche aleatoriamente, pediu o primeiro que seus olhos puderam ler no cardápio mal pendurado em uma das paredes. Eduardo não fez o mesmo. Leu a todos ,um por um, até que escolheu o lanche mais simples da lista.Era costume dele não agir sem pensar,seja lá o que ele fosse fazer.Desde criança queria ser diferente do seu pai.Seu pai era bicho-grilo,pai solteiro,fumante e bebia muito.O pai bebia desde quando ele se conhecia por gente.

Sua mãe o deixou aos cuidados do pai que nunca realmente havia cuidado dele.

Sentaram-se nas cadeirinhas armadas no meio da calçada.Ainda sem falar uma palavra,sem dar um gesto que fosse.Olharam se.Roberto,pretendendo quebrar aquele silêncio angustiante,disse:"-E ai filho como vai a faculdade?".Pensando em seu íntimo no que nunca havia feito para a judar ao filho.Nunca tinha o ajudado a estudar nem sequer o incentivando.Aliás,ele nem tinha tempo entre uma bebedeira e outra para isso.Ele tinha que cuidar de sua própria vida e queria que seu filho entendesse isso.Afinal,nunca nada faltou ao filho desde roupas até brinquedos e livros.Faltava só a sua companhia,falta essa a qual o pai tentava calar com um brinquedo ou um bom livro novo.

Seu filho havia entrando em uma das faculdades mais disputadas do país por mérito próprio.Mérito esse que Eduardo nem sabia de onde o filho havia tirado.Cursava agora o último ano do curso."- Tá tudo bem."Respondeu Eduardo meio cabisbaixo torcendo para que o seu lanche chegasse logo.Conversas com seu pai definitivamente o intimidavam.Tantas palavras eram necessárias serem ditas,tantas queixas,tantos gritos,tantos abraços precisavam serem dados.Mas nada nunca foi dito de sua boca.Nada.Nunca foi dita nem uma queixa,nem uma lamentação.

"-E a namorada filho?Quando é que vocês vão se casar heim?Quero ser vovô em breve.Sabe,acho que vou ser um daqueles avós babões.Beeem,agora que larguei de vez o vício quero me dedicar de uma vez por todas à minha vida.Fazer tudo o que eu não fiz,já estou ficando velho,você sabe disso.E para isso,nada melhor que um netinho.O que acha?"Roberto desandou a falar,falava sem parar,sem motivos aparentes,já que até ali ele não havia dito absolutamente nada.Falava sem pensar muito no que que estava dizendo,praticamente vomitando as palavras.


Eduardo olhava para ele mas já não o escutava mais,sua voz ia sumindo entre milhõe de coisas que passavam pela sua cabeça.Sua vida ,sua faculdade,seus amigos,sua namorada,tudo girando em um só sintonia.

A voz do seu pai já estava muito longe quando se lembrou dela.Sua namorada,sua doce Luísa.Se conheceram na adolescência.Ela foi o seu primeiro amor,seu primeiro beijo,sua primeira namorada,sua primeira transa e em breve seria sua esposa.Em breve.SUA esposa.Será que era realmente isso o que ele queria para a sua vida?Ele apenas fingia não saber mas, no fundo sabia exatamente qual seria o seu destino caso se casasse com Luísa:2 filhos,um sobradinho arrumado e pintado,um carro grande para caber todos,inclusive a mãe de Luisa que veio do interior passar uns dias e acabou ficando anos.Escola particular para pagar,contas de luz,de gáz,de água.Sexo monótono.Vida metódica.E não era isso mesmo que ele sempre quis?Ser diferente do seu pai,diferente DELE.

Voltou a vida real.O lanche já estava na mesa e seu pai havia se calado .Agora olhava fixamente para o filho"-O que é que você tem heim?"Lucas o olhou.As rugas iam lhe tomando o rosto mal cuidado do pai.Emoldurando seus olhos verdes e altivos."-Sabe pai,não sei se eu a amo.Não sei se é isso o que eu quero para mim."

O pai lhe olhou. Doía ver a incerteza nos olhos do filho.Por isso que ele tinha medo do amor,medo de não saber diferenciar a real do imaginário.Sua vida tinha sido dura,ele não tinha feito nem metade do que deveria.Para ninguém.Nem ao filho,nem as muitas namoradas que tivera,muito menos à aquela que havia lhe dado seu bem mais precioso,seu filho.Não fez nada o que uma pessoa normal considera correto.O errado,o ilegal,sempre o atraiu.Era engraçado.Apesar da vida errante,agora ele sentia orgulho,uma acréscimo de estima por si mesmo.Orgulho por nunca ter tido essa dúvida.Nunca dúvidou se amava ou não amava alguém.Ele simplesmente não amava e ponto final.Amava somente ao filho,e essa era a única certeza de que tinha .


Sempre achou que seu filho era melhor que ele em todos os sentidos,e realmente,ele era...Era mais bonito,mais forte,mais inteligente.Não fumava,não bebia,nunca havia se drogado.Mas agora,Roberto tinha orgulho de ter passado tudo o que tinha passado.Olhou para ele,olhou dentro dos seus olhos.“-Sabe filho, a vida as vezes nos ensina coisas que não estão nos livros.Você precisa saber disso antes de mais nada.Essa sua dúvida.Bom,acho que só a vida pode te responder.E com certeza ela vai."