04 fevereiro 2010

Lembranças

[...] Mas da saudade eu tenho medo, do final, do adeus. Acabar algo sempre dói, mesmo quando foi você quem escolheu que fosse assim. Jogar planos fora dói. O final sempre deixa um gosto amargo na boca, uma vontade seca e corrosiva, descendo forte e latente pela garganta. Depois uma saudade que não passa, que machuca, que sangra a cada momento, a cada lembrança, uma agonia lasciva que chega profunda, quando o olhar, sem querer, toca algo que fez parte da história de um dois. Corri da saudade durante anos, guardei coisas que deveriam ser jogadas fora, escondi de mim mesma muitas verdades. Não há jeito, a saudade te acha onde quer que você esteja, faça o que você fizer.


Eu sei o quanto pensar no que já foi dói, na renda branca que cobria suas mãos, nas flores brancas, na risada alta dada no parque algum dia. Porém, acredito que o quê fere mais é essa saudade absurda que aperta o estômago, é esse desejo de viver tudo o que não foi vivido, são todos os momentos que eu não passei, a felicidade que eu não pude agarrar. Aquele eterno clichê “isso passa”, não funciona de forma alguma neste momento. Não, não vai passar enquanto eu não decida que irá passar, enquanto eu não permita que seja assim. E você sabe, da saudade eu tenho medo, já te disse algumas vezes. Quero ainda te guardar inteiro, pleno, vivo em minha memória, em algum lugar onde não exista adeus, nem despedida. Num lugar onde o sol ardia quente e eu ainda era uma criança, apenas mais uma criança, que sorria enquanto nós brincávamos juntos no parque.