02 março 2010

Eu ainda posso ouvir

Ela passa quieta por ele, ele passa quieto por ela, mas mesmo assim, ainda dá para ouvir, de longe, o barulho que eles fazem. Uma sinfonia de corações que batem gelados, estúpidos, inertes ao desejo que pulsa mais alto e forte que a indiferença. O silêncio definitivamente já não cabe no vão das coisas que disseram um ao outro. E todas as verdades imutáveis que haviam dito, aquelas que saíram vibrantes pela boca, em semanas foram transformadas em pequenas mentiras. Não ela não o odiava, sim ele ainda a queria, sim ela ainda o amava. Era inquestionável. Eles ainda se gostavam. No entanto, naquele momento, eles se cruzam calados, os olhos baixos. Um silêncio perturbador e tudo o quê mais desejavam possuí nome: um ao outro.


Quando diziam que não dava mais, que não se queriam, a frase saia embaçada, estranha, deformada. Não, aquilo tudo não era verdade. Eles se queriam mais do que nunca, queriam sim as mãos que se tocam, os beijos, abraços, as mentiras bobas, os olhares, o afeto. Queriam brigas de ciúmes novamente, ter um choro calado por uma única palavra. Talvez, quem sabe, o amor entre eles tivesse deixado de ser menos amor para continuar sendo amor, para continuar a viver, para sobrevivente a mais um naufrágio. Assim, ele passa mudo por ela, ela passa calada por ele, mas eu ainda ouço... Sim, eu ainda posso ouvir o enorme barulho que eles fazem.