12 maio 2011

Ainda que em sonhos...

O carro preto lustradissímo andava lentamente pelo bairro. Lá estava ela, vestida a caráter, no dia que deveria ser o mais importante de sua vida. O vestido longo e pesado cobria todo o banco de trás do carro. Pela janela aberta ela olhava a rua pouco movimentada de domingo, crianças brincando, correndo de um lado para o outro, parando instintivamente as suas brincadeiras para olhar a noiva passar. Olha a noiva! Pulando e dando acenos no ar. O ar entrava pesado em seus pulmões, mal conseguia respirar. O suor frio molhava as luvinhas rendadas que eram feitas do mesmo tecido de que era feito seu vestido. Sonhara mil vezes com aquele dia, encenara o andar, os gestos, as palavras. Ela entrando de mãos dadas com o pai, enquanto toda a igreja a olhava, admirada. Como ela está linda! Aquela era a concretização de seu mais antigo sonho de menina, a realização de uma antiga brincadeira. Devaneou nas bobagens que fazia enquanto garota, quando fantasiava seu casamento, ao entrar de mãos dadas com um boneco de pano, para mais tarde beijá-lo na boca mal costurada, fazendo-lhe juras emendadas de amor eterno. A mesinha de centro da casa de seus pais fazia às vezes de padre. E repetia o que já tinha ouvido em filmes, novelas e no rádio. Ó meu amado, eu juro amor Eterno! Prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Amando-te e respeitando-te até que a morte nos separe. O céu estava quase limpo, um azul impecável, rasgado apenas por algumas nuvens acinzentadas que ameaçavam uma daquelas chuvas típicas de verão. Sol e chuva, casamento de viúva. Chuva e sol, casamento de espanhol.

Pensado e repensado mil vezes, tudo estava perfeitamente organizado. Seu vestido, o ramalhete de pequenas florzinhas campestres, os sapatos altos, a decoração da igreja, os padrinhos e sua família à espera. Havia somente um problema: quem a esperava no altar não era o homem a quem seu coração pertencia. Submersa nas lembranças de sua infância, nas crianças que brincavam, no nervosismo que a acompanhava insistentemente, ela pode ver de relance, do outro lado da rua, um vulto muito conhecido. O antigo namorado. A visão daquele vulto transformou todo aquele nervosismo em angustia plena. Envolta naquele rodopio eletrizante que sua mente fazia, tinha certeza: aquele era o homem a quem amava. Mas presa as hipocrisias do destino, nada fez. Olhou de longe. Ele estava montado na moto olhando-a também. Desceu do carro. Ajeitou o véu e a grinalda. Entrou na igreja para completar o seu destino.

Perdera a conta de quantas vezes havia refeito aquela cena mentalmente. Aquele dia a atormentava profundamente. Durante anos aquilo doeu fundo, como um sino grande e pesado que badalava insistentemente, ecoando dentro de seu coração. A ferida foi cicatrizando, até que a dor docemente se retirou, dando lugar à uma calma resignação: “Foi como deveria ser”. Mas quantas e quantas vezes ela não se imaginou saindo do carro apressada, correndo feito uma louca pela rua, retirando o véu e deixando os cabelos desajeitados caírem sobre seus ombros, ao mesmo tempo que ela subia na garupa da moto e abraçava a cintura do antigo namorado, enquanto ele acelerava e saia de lá o mais rápido possível. Abraçada à ele, ela ia se afastando de tudo e de todos e enquanto a velocidade da moto aumentava, ela podia ver as pessoas saindo da igreja, transtornadas e atônitas com o que ela havia feito. Então, ela apertava ainda mais o seu corpo contra o dele, o barulho da moto soando forte, como aplausos ao final de um sonho em preto e branco, e ela tinha plena certeza de que o seu destino estava completamente em suas mãos. Ainda que fosse só no sonhar...