14 maio 2011

Destroços, entulho e poeira

As lágrimas corriam soltas pelo seu rosto, entrecortando a face muito branca, construindo pequenos rios difusos de água salgada. Não chorava por isso ou por aquilo: chorava pelo todo. Seus pensamentos, engatilhados por soluços profundos e dolorosos, causavam-lhe um pânico acolhedor. O tal pânico vinha do terror da solidão. Em todos aqueles anos de casamento havia desaprendido a ser sozinha, a viver desacompanhada. Saberia caminhar só? Já a sensação de acolhimento vinha da inútil certeza de que já estava só havia muito tempo. Aquela seria apenas uma transição de estado civil. Todas as tempestades pelas quais o relacionamento dos dois havia passado, finalmente mostravam seu efeito devastador. Ela estava destruída: sua alma era composta por destroços, entulhos e muita poeira.

A distância entre dois havia se tornado insuportável. Há pouco estavam juntos, mas ela e ele estavam literalmente sozinhos. Você saberia viver dessa forma? Estar ao lado de alguém, mas ainda assim se sentir a pessoa mais solitária do mundo? E ninguém mais do que ela sabia que a solidão acompanhada é muito mais cruel e triste do que a solidão real. Ter alguém com quem compartilhar as pequenas alegrias, os momentos de dor, as grandes ternuras, mas não ter sequer uma fagulha de vontade de compartilhá-los com esse alguém. Era um desajuste incerto. Não sabia o porquê de toda aquela distância, o porquê de todo aquele ressentimento que doía latente, como um corte grande e profundo. O que sabia era que, naquele momento, o fim era iminente.

Nunca havia sofrido qualquer acidente, mas certa vez, ouvindo uma notícia de rádio, soube de relatos de uma família de sobreviventes de um terremoto em um país distante. Diziam eles que no momento em que o chão começava a tremer e que tudo ao seu redor começava a se destruir, como que por uma força cruel invisível, sentiam o desastre iminente, mas não queriam e nem poderiam fazer qualquer coisa. Se tivessem oportunidade e tempo hábil, escondiam-se em baixo de alguma mesa, cama ou algo que pudesse servir de abrigo e esperavam. Apenas esperavam que aquilo tudo acabasse. E quando o fim era trágico e irreversível, quando quilos de concreto e poeira estavam impedindo-os de se mexer e respirar, quando não se ouvia mais nada, e apenas um silêncio absoluto de terror tomava conta de tudo ao redor, perguntavam-se estarem vivos ou mortos. Nada. Naquele vazio de vida de pessoas que ainda não haviam compreendido o que estava acontecendo, surgiam os primeiros movimentos, os primeiros lamentos dos filhos, dos pais, dos avós, que em seguida se transformavam em gritos de dor e de morte.

A questão é que, diferente daquela família de sobreviventes, ela sabia que ninguém viria resgatá-la daquela montanha de destroços que se acumulavam dentro e por cima dela. O terremoto havia acontecido, e ela também amortizada pelo medo, não havia feito nada. Esgueirando-se do inevitável, tornou-se aquele monte de entulho, e agora só ouvia os gritos de horror que seu corpo insistia em não sufocar. Precisava sair dali sozinha, precisava finalmente respirar.