08 junho 2013

Espero por ti no meio das gaivotas



Por que motivo apenas te aproximas de mim quando queres fazer amor? No resto do tempo chegas do banco e és só jornal e calças no sofá, se tento falar-te o jornal treme de zanga, sobe mais um pouco, as pernas cruzam-se, impacientes, em sentido contrário, o sapato fica a dar e dar no vazio, toco-te e encolhes-te, faço-te uma festa no cabelo e a cabeça diminui de tamanho, arrepiada, um protesto ronca das notícias

- O que foi agora?
- Já nem se pode ler em paz?
- Fazes o favor de não me despentear?

jantas calado a rolar bolinhas de pão entre suspiros, desapareces antes que eu acabe de comer, nem uma palavra para a minha saia nova, uma pergunta sobre como me correu o dia nas Finanças, um beijo, ficas de mãos nos bolsos a olhar o prédio em frente, atiras o canal para o desporto quando começa a novela, aborreces-te do desporto, carregas no botão e reaparece a novela

- Olha essa porcaria à tua vontade

tudo te enjoa, te aborrece, te cansa e uma vez por semana, quando já estou meia a dormir, o teu braço a arrepelar-me, o ombro que me aleija, uma vertigem rápida, um caminhão a abanar o prédio na rua, eu a fixar os números luminosos do despertador ao lado das tuas costas indiferentes, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto

(- Não mudei nada, que mania)

ao conhecermo-nos, há dez, minto, há onze anos, chegavas-te a mim embrulhado em vénias de timidez, a ensaboar as mãos, com o sorriso borboleteando em volta da boca sem se atrever a poisar

-Um dia destes convido-a para um café, menina Clara.

tão atencioso, tão terno, tão preocupado comigo, a notar quando eu mudava de brincos, de penteado, de anel

- Que bem Ihe fica a franja, menina Clara

o meu pai simpatizou logo contigo por te levantares, com o tal sorriso a adejar, mal eu entrava na sala, o que aconteceu, amor, para mudares assim tanto

(- E ela a dar-lhe, que gaita)

descíamos para a muralha do rio, em novembro, com as gaivotas todas na praia, corríamos de mão dada a assustar os pássaros, achavas-me graça, achavas-me bonita, dizias que eu ficava linda a correr

- Parece mesmo uma gaivota, sabia?

que qualquer dia me escapava de ti, a bater as asas no rasto de um cargueiro turco, perguntavas-me ao ouvido, aflitíssimo, ansioso

-Nunca me deixa, pois não?

(- As fantasias que tu vais buscar, meu Deus)

apertavas-me tanto pela cintura que quase não conseguia respirar, por favor explica-me o que fiz de mal pare mudares assim tanto, ainda sou capaz de correr da mesma maneira se voltarmos a praia em Novembro, que é feito do teu sorriso e do ensaboar das mãos, ponho um batom diferente, a blusa decotada, os sapatos que nunca me atrevi a usar para os homens não se meterem comigo na avenida

- Ainda há quem me ache engraçada, sabias?

(- Pois que lhes faça muito bom proveito)

desço lá abaixo à muralha e fico no meio das gaivotas à espera que chegues

(- Agora deste em maluca ou quê?)

sem jornal, sem caretas, sem bolinhas de pão, a convidares-me, nervoso, para um cafá na esplanada, soprando pelo meio do sorriso que não para, que não pare

- Apetece-me tanto dar-lhe um beijo, Clarinha

(- As parvoices que a gente diz em novo, senhores)

e nisto, não sei se deste conta, as gaivotas sumiram-se todas e ficamos sozinhos, amor, só a praia e as ondas e eu tão contente, tão com a certeza ainda tenho a certeza

(- Cada qual tem as certezas que quer)

de sermos felizes para sempre, de podermos ser felizes se um dia me deixares... deixas não deixas, aposto que deixas

(- Que teimosia, que insistência, Já é cisma, caramba)

abraçar-te.
António Lobo Antunes - Segundo Livro de Crônicas, 2009.

Nenhum comentário: