Vazio. Nada me habita. Nada me convém. Meu corpo é
instrumento do vento, meus pensamentos são engatilhados pelos sons da TV,
ligada no escuro. Nem o ar me compõe. Há somente o vácuo. Quero sentir, sim,
quero sentir. Quero que a dor chegue e se acomode. Talvez ela me faça sentir
mais viva e menos fora dessa roda-gigante que é a vida. Nada. Ela não vêm.
Continuo chorando, mas a dor, a dor de fato, não me domina. Choro por tudo e
choro pelo nada. Vacilantes pensamentos me cercam e me olham com desdém. Que
tipo de mulher, é você? Mas que diabos?! Minha alma ouve com resignação
absoluta. Sou. Sou e não sou. Vazio,
vazio, vazio. Alguém me dê ar! Alguém me tire daqui!
Toca fundo a minha alma. Toca no mais profundo que você possa
alcançar. Percebe o vazio que há em mim? Tem jeito? Você acha que tem jeito de
preenchê-lo? Por favor, me responda.
Como eu cheguei até aqui? Não sei. Um turbilhão de decisões
mal tomadas e uma resignação assustadora. Sou assim desde a infância, sabe. Uma
lembrança ainda me atormenta. Não sei se, de fato, a vivi, mas a carrego comigo
desde a mais tenra infância. A mulher que estava encarregada de cuidar de mim
me manda acordar. Rispidamente diz: Acorde, vamos! Eu, criança pequenina, obedeço,
acordo e calmamente me dirijo a sala da minha casa. Ela manda que eu sente
no sofá. Eu me sento e ela me empurra uma mamadeira de leite morno. Ande, tome!
Se fizer sujeira vai limpar, heim? Obedeço. Ela fala para que eu não me
levante do sofá. Obedeço. E fico ali durante horas e horas. Visto apenas uma camisola
florida e uma pequena calcinha. Quero ir ao banheiro. Ela ordena que eu
permaneça onde estou. Obedeço.
Nunca fiz nada na minha vida que não fosse obedecer. Obedeço
sem pestanejar.
Vamos menina, engula esse choro! Me olha nos olhos com ar desafiador.
Que olhos terríveis! Por que não gosta de mim? Engula, vamos, estou mandando.
Obedeço. E calmamente engulo saliva e dor. Nada dói tanto quanto isso. Um misto
de resignação e humilhação se apetecem de mim.
Ah, sim. Agora posso senti-la. Ah, dor. Sim, você! Deixo que
você se apodere de mim e obedeço aos seus mais claros instintos. Deito-me no
chão e soluço copiosamente de tanto chorar. Mas esse choro, esse, sim, é de
alívio. Anda, me lava a alma, me cura desse nada. Me alivia desta morte certeira que é viver
sob o estigma da obediência.
