27 junho 2013

Obediência


Vazio. Nada me habita. Nada me convém. Meu corpo é instrumento do vento, meus pensamentos são engatilhados pelos sons da TV, ligada no escuro. Nem o ar me compõe. Há somente o vácuo. Quero sentir, sim, quero sentir. Quero que a dor chegue e se acomode. Talvez ela me faça sentir mais viva e menos fora dessa roda-gigante que é a vida. Nada. Ela não vêm. Continuo chorando, mas a dor, a dor de fato, não me domina. Choro por tudo e choro pelo nada. Vacilantes pensamentos me cercam e me olham com desdém. Que tipo de mulher, é você? Mas que diabos?! Minha alma ouve com resignação absoluta. Sou. Sou e não sou.  Vazio, vazio, vazio. Alguém me dê ar! Alguém me tire daqui!

Toca fundo a minha alma. Toca no mais profundo que você possa alcançar. Percebe o vazio que há em mim? Tem jeito? Você acha que tem jeito de preenchê-lo? Por favor, me responda.

Como eu cheguei até aqui? Não sei. Um turbilhão de decisões mal tomadas e uma resignação assustadora. Sou assim desde a infância, sabe. Uma lembrança ainda me atormenta. Não sei se, de fato, a vivi, mas a carrego comigo desde a mais tenra infância. A mulher que estava encarregada de cuidar de mim me manda acordar. Rispidamente diz: Acorde, vamos! Eu, criança pequenina, obedeço, acordo e calmamente me dirijo a sala da minha casa. Ela manda que eu sente no sofá. Eu me sento e ela me empurra uma mamadeira de leite morno. Ande, tome! Se fizer sujeira vai limpar, heim? Obedeço. Ela fala para que eu não me levante do sofá. Obedeço. E fico ali durante horas e horas. Visto apenas uma camisola florida e uma pequena calcinha. Quero ir ao banheiro. Ela ordena que eu permaneça onde estou. Obedeço.

Nunca fiz nada na minha vida que não fosse obedecer. Obedeço sem pestanejar.

Vamos menina, engula esse choro! Me olha nos olhos com ar desafiador. Que olhos terríveis! Por que não gosta de mim? Engula, vamos, estou mandando. Obedeço. E calmamente engulo saliva e dor. Nada dói tanto quanto isso. Um misto de resignação e humilhação se apetecem de mim.  


Ah, sim. Agora posso senti-la. Ah, dor. Sim, você! Deixo que você se apodere de mim e obedeço aos seus mais claros instintos. Deito-me no chão e soluço copiosamente de tanto chorar. Mas esse choro, esse, sim, é de alívio. Anda, me lava a alma, me cura desse nada.  Me alivia desta morte certeira que é viver sob o estigma da obediência.