09 agosto 2008

Esperanças


Era um domingo nublado. Estavamos eu e minha mãe em casa quando de repente, vimos algo no chão da sala. Uma coisinha verde, com pernas longas e o corpo frágil. Suas mãos estavam postadas como se estivesse em oração. Nunca no alto dos meus 8 anos tinha visto algo parecido com aquele bichinho. Ele era tão feio e ao mesmo tempo tão maravilhoso. Tão deslumbrante. Sua cor era de um verde vivo, incandescente. Seu corpo, de tão delicado, parecia que podia (e iria) se quebrar a qualquer momento. Não hesitei em pegá-lo em minhas mãos. Era engraçado, eu tinha medo de qualquer tipo de inseto até então, mas daquele pequeno bichinho não senti nem um pouco de medo ou de asco. Ele me chamava a atenção e eu nem sabia o motivo.

Como ele havia parado aqui? Me perguntei. Na minha casa não havia nenhuma mísera plantinha que atraísse o bichinho. Só havia concreto, paredes e quadros por todos os lados. Curiosa, peguei o pequenino nas mãos e ele não voou mesmo tendo um belo par de asinhas (que mais se pareciam com folhas verdes). Fui até minha mãe e perguntei que bichinho estranho era aquele. Primeiro ela se espantou, por eu estar com ele nas mãos. Depois me explicou que o tal bicho se chamava esperança. E-S-P-E-R-A-N-Ç-A, que nome lindo para um bichinho tão esquisito. Por que esperança? E por que ele estava na minha casa? “Vê se joga esse bicho fora viu menina?!” Foi a única coisa que ela me disse depois do nome do pobre bichinho.

Não quis jogar e não o joguei. O que eu fiz foi colocá-lo em um vidro de azeitonas vazio. Eu queria aquele bichinho pra mim e agora ele era meu, meu e de mais ninguém. Literalmente eu havia prendido a esperança, em uma prisão transparente e fria.

No dia seguinte como em todas as manhãs fui à escola e (que ingenuidade a minha!) pensei que a esperança gostava de alface. Coloquei então uma folha de alface dentro do vidro, e segui para a escola prometendo ao coitado que em breve estaria de volta. Quando cheguei, lá estava o bichinho, inerte dento do pote de vidro. A folha de alface nem sequer havia sido tocada por suas patinhas delicadas. Me preocupei e resolvi tirá-lo de lá. Claro, egoísta que era, com todo o cuidado do mundo para que ele não escapasse das minhas mãos. A esperança estava morta.Não só o pobre e inocente bichinho mas como aqui dentro de mim.

Chorei litros de lágrimas, lágrimas doídas de uma criança que pensava que o mundo se acabaria ali e ponto final. Depois de concluir que a esperança podia ter voado para longe desde a hora em que tinha entrado na minha casa e em minha vida, fiquei ainda mais desiludida com o mundo. Ela podia ter fugido de mim, mas não fez isso. Acreditei que ela havia escolhido ficar comigo e eu, num ato de puro egoísmo a prendi dentro de um pote, supondo que ela sobreviveria ali.

Foi naquele dia que eu descobri uma das grandes lições que já pude aprender. As duas esperanças precisam de uma coisa chamada LIBERDADE para sobreviver.