20 julho 2009

Conclusões feitas por ele

Amor. O que é o amor para mim? Nossa, que pergunta a sua heim?

Não sei. Realmente eu não sei. Porque me pergunta isso?

(Silêncio)

Ok, talvez eu saiba. Vou te dizer que penso, é algo muito meu, algo que venho pensando a anos.

Na escola eu vivi o meu primeiro amor, tão inexorável esta sensação não acha? Minha professora. Ela não era bonita e não era feia. Alta, magra, calada. Parecia sempre estar presa em um mundo somente dela e aquilo me causava um pavor, uma insegurança tamanha, que todo aquele sentimento foi se transformando pouco a pouco em amor.

Um amor em forma de idolatria. Talvez eu só amasse o que ela representava. Eu, garoto de sete anos, tímido, calado, esquisito e ela era tudo o que eu desejava pra mim. Como eu desejava ser como ela. Seus copos de água antes da aula começar, seus beijos carinhosos em minhas bochechas que ficavam instantaneamente ruborizadas. Seus olhos caindo por debaixo dos óculos daqueles grossos aros negros, para observar minha caligrafia que propositalmente, ia de mal a pior. Ninguém na primeira série sabia escrever tão corretamente quanto eu. Mas era um plano maligno: eu fazia questão de rabiscar os Ss ao contrário, fazer Es que mais pareciam Ls e Ls que mais se pareciam com Es. Então, lá vinha ela, minha adorável professora, fazendo caretas sinistras ao olhar meus cadernos. A sensação de tê-la perto de mim era inexplicável. Ela se zangava comigo e dizia que eu podia muito mais que aquilo. A vergonha tomava conta de mim e eu humildemente abaixava a cabeça fingindo choro, não sem perder a alegria frenética que sacudia minha alma, que transportava uma energia inconfundível por todo o meu corpo, pelo simples fato de ter o seu rosto, os seus olhos tão perto de mim.

Pequenos segundos, grandes eternidades que eram somente meus e de nenhum dos meus outros colegas de classe.

A primeira série passou rápido como um raio e entre gibis, bola de gude, vídeo games e partidas de futebol comecei a me distanciar das mulheres em geral. Meus amigos, meu pai e a seleção brasileira eram o meu mundo. Foi quando, de repente me vi no alto da puberdade. E lá estava eu, garoto que era, com pelos crescendo por todo o corpo, transformações tão rápidas que me assustavam.

A descoberta de pequenos mundos era constante, todos os dias me deparava com algo novo. Foi quando me deparei com o sexo oposto. Com as mulheres que até então haviam sido excluídas do meu mundo. Até então. Foi com Aninha, minha colega de classe que descobri o que era gostar de alguém. Pura ilusão. Aninha nunca me deu bola, nunca uma olhada sequer, nunca um sinal de aprovação. Eu, ao contrário, enviava diariamente milhares de sinais a ela: -Ei, eu estou aqui, estou aqui!

Com o meu primeiro amor descobri o que era sofrer. Sofrer no sentido mais amplo da palavra. Afinal, eu no alto dos meus quatorze anos, não sabia distinguir o que era pra ser levado a sério e o que era. Sofri muito por Aninha. Mas estou me distanciando do tema que me foi proposto. O que é o amor pra mim afinal? Bom, eu já tive algumas namoradas, paqueras, rolos, flertes. Hoje sou homem feito, posso decidir o que quero fazer da minha vida: se abro o coração para um novo amor ou se continuo do jeito que estou. Porém vou te dizer uma coisa sobre o que conclui com o amor: o tempo dilacera os relacionamentos, os desgasta. Não só o tempo, o tempo e tudo o que ele carrega consigo.


Cheguei a esta conclusão há algum tempo atrás. Estava eu voltando das férias na casa de praia dos meus avôs. Férias ótimas, muito sol, praia todos os dias, mulheres, futebol de areia. Estava com 17 anos. Eu voltaria com um ônibus rodoviário que saia todos os dias a tardezinha rumo a São Paulo. Sentei-me em uma cadeira próxima a janela, que dava vista para o terminal rodoviário e mais alguns ônibus que seguiam outros destinos. Foi quando me deparei com ela. Sentada na cadeira de um outro ônibus, me olhava com um olhar perdido. Talvez, pensasse que eu não a via. Olhar curioso, olhos verdes que mesmo com certa distância poderiam ser notados. Pele morena, cabelos ondulados. Quando ela percebeu que eu também a olhava sorriu e ruborizou. Fingiu olhar outra coisa, desviou o olhar, mas quando ele voltou para o seu ponto de partida, para ter a certeza que eu não estava mais a olhando, me encontrou firme e forte, olhando-a fixamente.

Ficamos assim durante um tempo, até que audacioso, mandei um beijo a ela. Ela sorriu e retribuiu o beijo. Ainda mais audacioso, mordi a boca, tentando tomar alguma atitude mais sensual. Que ironia. Aquele meu ato, foi algo cômico. Ela sentada na cadeira do outro ônibus parecia gargalhar. Fez uma careta e sorriu novamente. O ônibus partiu, e eu só tive tempo de lhe dar tchau, sinal que ela retribuiu com certo carinho. Nunca esquecerei aquela menina. Simplesmente porque ela foi o amor mais lindo e mais puro que já tive. Sem cobranças, sem mesquinharias, sem egoísmos de ambas as partes. Foi bonito porque simplesmente não teve tempo de acontecer, não teve tempo de ser estragado por essa rotina absurda, por esse tempo dilacerante. É exatamente por isso, que o guardo aqui dentro até hoje. Um amor tão rápido que acabou assim que o ônibus partiu e eu me despedi. Porém, um amor que eu sei que nunca vai ser apagado de mim.

Tá aí, o que eu acho (ou não?!) do amor.