02 agosto 2009

Mil Mulheres

Ela se fazia de mil mulheres.
Pela manhã, com o sol, era trabalhadora, dedicada, construtiva. Fazia acontecer. Fazia dinheiro, fazia inimigos, fazia chover se fosse preciso. E de tarde, quando a tristeza batia à porta, quando uma enorme angustia lhe subia garganta a cima, chorava. Não chorava por isso ou por aquilo. Chorava porque uma ânsia de viver o que tinha para ser vivido, porque uma dor tomava conta, pouco a pouco de cada pedaço de seu corpo. Chorava porque uma gastura, um nó na garganta lhe dominava e arrebatava. Então, tentava limpar o rosto e acendia seu cigarro. Sofria por alguns instantes, o tempo do cigarro acabar. Tomava um café, colocava-se em frente ao espelho e ajeitava os cabelos, limpando os resquícios ameaçadores daquilo que havia tomado seu tempo precioso. Recompunha-se. Afinal, não possuía tempo para se lamentar no meio daquela selva de batom na qual vivia e ela não queria, não podia, chorar no ônibus. Em casa os filhos a esperar, o fogão a esperar, o marido a esperar.

A angustia vinha do querer mais, do desejar mais. Sim, ela desejava mais. Queria não ter medo, nem vergonha de ainda desejar. Queria primeiras vezes outras vezes, um primeiro beijo outra vez. Queria conhecer um novo lugar, extreiar algo, ter novas sensações dia após dia. Queria ar, não ser sufocada por aquelas milhões de exigências e obrigações como ser a melhor funcionaria do mundo, a melhor filha do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor mãe do mundo. Queria por em prática as idéias que nunca teve coragem de realizar, se divertir fazendo coisas inesperadas. Ao chegar em casa escondia então o lado insatisfeito da vida, o seu lado transgressor, pois não podia, não queria chorar na frente dos filhos.
Ela mais do que ninguém sabia que para viver era necessário parecer e muitas vezes não ser. Continuava, seguindo sua vida, as vezes até se esquecendo de quem realmente era, do que realmente desejava no meio de tantas mulheres dentro de si, de tantas insatisfações, de tantas personagens que era obrigada a encenar dia após dia.

E quem é que esta satisfeito com o que têm? Todos queremos sempre mais, esperamos sempre mais da vida.
Ainda bem!