15 julho 2009

Pássaros rumo ao sul

Porque ele havia se tornado muito mais que apenas mais um. Ela necessitava dele, necessitava violentamente dele e sabia que daí vinha a tempestade dentro de si. Por que desejar algo que não podia possuir inteiramente? Por que se alimentar de algo que a consumia dia após dia? Já não bastava somente a si mesma? Não, ela não se bastava. Precisava dele descompassadamente, dele, somente dele. Como algo tão pequeno poderia ter se tornado tão grande? Não sabia responder... Naquele momento, sabia apenas que a angustia tomava conta de cada parte de seu corpo. Estava fora de seu alcance mudar tudo aquilo. Tempestade de sentimentos. Deus! Como desejava bastar-se. Por que toda aquela fixação em tê-lo pra si, em desejá-lo tão vasta e profundamente? Talvez, quem sabe, tivesse se acostumado a proteção daquele homem que era uma parte essencial de sua vida e via o quão perigoso era tudo aquilo. Já não bastava estar protegida pela sua própria força, necessitava da dele. Ou talvez tudo aquilo fosse movido pela necessidade de receber sem que fosse esperado dela algo em troca. O que recebia dele era gratuito, sem regras ou cobranças. Dessa forma, via-se submersa naquela maré de sentimentos. Imaginava-se como os pássaros que migram rumo ao sul no inverno, mas que sempre voltam para casa nos primeiros dias de verão. Podia seguir rumo ao sul nos meses frios e gelados, porém desejava profundamente voltar para casa, para seu porto seguro. Perguntava-se então: como amar a liberdade se, após longos períodos libertos, tudo o que mais desejo é voltar para o meu Sul? Esta era apenas mais uma pergunta que ela não sabia responder.