30 junho 2009

As cortinas de algodão


Manhã de quarta feira. São sete horas. Quarta feira cheia de neblina, tempo frio, ar revigorante. Ela abre a janela e as cortinas do seu quarto. Fecha os olhos, respira fundo. Sente o sopro da vida entrar dentro de si, dominando cada parte do seu corpo. Olha para o céu nebuloso a procura do sol. Ele estava ali, em algum lugar, escondido entre qualquer uma daquelas centenas de nuvens negras que cobriam o céu tempestuoso. Lembrou-se da canção que costuma ouvir "A tempestade que chega é da cor de seus olhos castanhos”. Mais um dia. Pensou ela, só mais um. Mais um dia naquela cidade cheia de carros, fumaça e buzina. Olha ao redor, apenas prédios robustos e altos a observavam.
Sentia-se sozinha, uma solidão torta. Como em um filme que havia vistos tempos atrás, onde o personagem principal não entendia bem o mundo que lhe rodeava. Foi quando pensou nele. Naquele homem que havia sido uma parte essencial de sua vida e que hoje não passava de fotografias guardadas em uma caixa velha dentro do armário. Pensou nele e em tudo o que já viveram juntos. Talvez o clima favorecesse nostalgia, não entendia bem tudo aquilo, apenas sabia que, misturado ao ar gelado que entrava por entre as cortinas de algodão, estavam milhares de lembranças dele. Dele e dela. Estranhou pensar neles como um casal. Há tanto tempo não pensava assim. E então, os momentos foram passando como um filme antigo projetado dentro de si, sorrisos, caras e bocas, risadas, bobagens sussurradas ao pé do ouvido. Agora? Agora a solidão era a herança de tudo aquilo. Ela, as janelas abertas com cortinas de algodão e uma casa quase sem mobília. Solidão. Esse era o seu legado, pensou. Respira fundo novamente. Solta o ar calmamente. Solidão.

Acima de tudo sentia o prazer de estar ali, naquele momento. Um momento apenas seu e de mais ninguém. Pensou que todas aquelas histórias que eram apenas suas. Afinal, mais ninguém via tudo aquilo como ela via, aqueles pensamentos eram somente seus. Nem ele deveria ver a história dos dois a partir do prisma que ela enxergava. Ela via tudo através de um caleidoscópio, com vidrilhos de todos os formatos e imagens coloridas. O que ela via não era real, nada daquilo deveria realmente ter acontecido. Mas ela gostava apenas de imaginar. Observava tudo o que ocorreu de uma maneira tão bonita, tão leve, tão sua.
Não tinha vontade de voltar no tempo. Aquilo eram lembranças que definitivamente haviam ficado no passado. Para sempre. Porém, gostava de pensar que ele sempre estaria dentro dela, de uma forma ou de outra. Não queria, de forma nenhuma, tira-lo dali, ele seria seu, para sempre e de uma forma totalmente afastada da realidade. Ela podia modelar todas aquelas lembranças da maneira que achava melhor, adaptá-las as suas fantasias mais secretas. Solidão. Sim, aquele momento, aquelas lembranças lhe traziam coisas boas. Estava sozinha e gostava de estar assim. Ela, suas lembranças e as janelas com cortinas de algodão. Pensou nos dois, um dia juntos, novamente. Não, não! Ela disse bem alto, como se de fato estivesse falando com alguém: - Eu não quero viver lhe roubando o prazer da solidão.