03 maio 2009

As histórias que nunca irão acontecer

Ela chega em casa, já é tarde. A casa silenciosa evidencia e simboliza toda a sua vida.Vida vazia, cheia de muita bagunça e de coisas para fazer. Joga as chaves do carro sobre o sofá e corre para a cozinha.O dia todo só havia comido algumas besteiras e o que mais queria naquele instante era comer qualquer coisa. Abre a geladeira em busca de algo. Nada. Apenas uma maçã abandonada e uma caixa de leite vazia a habitam. Na despensa ocorre o mesmo. Ela apenas pára e pensa quando foi a última vez que havia ido às compras.Não consegue se lembrar.

Despensa vazia e tempo nenhum de sobra. Resolve ir ao supermercado e abastecer a despesa de seu pequeno apartamento naquele momento, antes que outra ocupação tomasse conta de sua mente e a fizesse esquecer novamente de si e de sua vida. Vida de solteira que lhe garantia algumas mordomias mas que a enchia de tarefas duras e chatas, como esta. Segue para o supermercado pensando no tamanho da sua solidão. Pensamento abafado pela música que toca no rádio do carro, música que a faz lembrar de sua adolescência, de seu ex-namorado, um passado distante e remoto. Distante por sua escolha. Aquela era a vida que ela sempre quis levar. Pelo menos até então. Até aquele momento. Pensou em como seria sua vida com alguém ao seu lado. Alguém para dividir os momentos bons e também os ruins, alguém que acalmasse a loucura frenética de sua alma.


Lá estava ela, entre os detergentes e desinfetantes, a procura do produto melhor e com o preço mais em conta.O olhar ávido passa rápido pelas prateleiras cheias, até encontrar um desinfetante em promoção. Levanta a mão e pega-o rapidamente, sem perceber que outra mão busca o mesmo objeto. Ela assusta-se, pensava ser a única pessoa que iria ao supermercado em plena noite de quarta-feira.Olha para o lado.Seu olhar encontra um belo rapaz, olhos castanhos. Sorriso branquíssimo emoldurado pela morenisse amendoada. Eles riem com a situação que se não fosse trágica, (ambos no supermercado, numa quarta-feira a noite, comprando desinfetantes baratos) seria cômica. Ele sente vontade de conversar com a moça que acabará de conhecer. Afinal, deveriam ter algo em comum. Ou quem sabe esta seria apenas mais uma dessas coincidências corriqueiras da vida? E quem é que sabe? O que eu sei e o que ele sabe, é que ainda havia muito o que comprar e pouquíssimo tempo, sem contar a luta contra o sono que lhe rompia vagarosamente. Foi assim que terminou. Sem nem ao menos começar.


Sorriram, um sorriso de cumplicidade mútua. Ele lhe deu o desinfetante, pegou outro,colocou em seu carrinho e seguiu o seu caminho de compras. Ela fez o mesmo.O que importa se ambos estavam sozinhos? O que importa se precisavam de alguém para conversar? O que importa, afinal, se ambos eram tão parecidos e gostavam de tantas coisa iguais? Nada. As coisas só acontecem quando devem acontecer. É a vida no final das contas. E, pensando bem, a sua vida, a minha vida e a vida de todo mundo é cheia de histórias e amores que poderiam gerar lindas histórias de amor, belíssimas amizades,mas que nunca sequer chegarão ao seu início.