05 junho 2009

Rotina morta


Seis horas da manhã, ele acorda e olha instintivamente para o lado. A mulher está ali como todos os dias. Beija-lhe a testa e senta-se na cama. Escova os dentes, penteia os cabelos, toma café quente e amargo. Veste seu uniforme e segue rumo a mais um dia de trabalho. Dá sinal ao ônibus lotado, ele para. Paga o cobrador, recebe as moedinhas de troco, passa pela catraca e permanece dentro do ônibus lotado e em movimento. Ali os pensamentos vão lhe tomando conta, pensa na mulher e nos filhos. Pensa no trabalho, no almoço, no jantar. Pensa na discussão que havia tido com a esposa no dia anterior e promete a si mesmo tentar melhorar o humor. Pedir-lhe desculpas acompanhadas de beijos carinhosos. Ele a amava, amava o fato de Deus ter lhe abençoado com uma família linda, dois filhos saudáveis e uma esposa admirável que fazia às vezes de uma, duas, três mulheres no mesmo dia. As vezes sentia-se cansado com a vida que levava, com todos os problemas e contas para pagar, mas logo os pensamentos ruins iam embora junto com uma ducha quente ou uma boa noite de sono.

O ponto onde ele deveria descer se aproximava e ele deu sinal de parada ao motorista. Com grande dificuldade atravessou a multidão de pessoas amontoadas no automóvel e desceu. A avenida cheia de carros, pessoas e buzinas. Olhou dentro de uma loja e viu enfeites natalinos. Então era dezembro e era natal. Como poderia ter se esquecido? Pensou nos presentes dos filhos... Não tinha dinheiro ao menos para um café na esquina. Muitas contas a pagar, muitos problemas pendentes. Daria um jeito, sim ele daria um jeito. Ele sempre dava. Queria apenas ver o sorriso na rechonchuda cara de seus pequenos, os olhos cintilando com um novo brinquedo. O semáforo ficou verde e ele atravessou mergulhado em todos os pensamentos, tão submerso que não viu um automóvel em alta velocidade vir em sua direção. Não pode ver nem ao menos a morte, passar rápida e astuta entre os pedestres, as bicicletas, os carros e os caminhões para lhe buscar. Ainda pensava na esposa e nos filhos.

Um passante que viu a cena com os olhos chocados seguiu pensando. Pensando em como a vida pode estar tão próxima da morte, um fio de linha fina as liga. Quatro passos e então acontece.
A morte, a vida. Duas coisas que o passante e eu queremos compreender.