10 março 2010

Mergulhar mais fundo

Levantou-se da cama num estalo. Como ousara dormir por tanto tempo? Tantas coisas a fazer, tantas decisões a serem tomadas. Olhou na janela, já era noite. Havia dormido muito mais do tinha imaginado. O dia havia sido aterrorizante, no trabalho milhões de tarefas, problemas pendentes, brigas... Em casa a situação não era diferente. Fechou as cortinas claras, lá fora um frio ar noturno soprava. Acendeu as luzes e caminhou até um grande espelho. Olhou-se, penteou lentamente os cabelos com os dedos. Olhou profundamente o reflexo de seus olhos. Pensava na vida, nas dificuldades que enfrentava dia após dia, nos amores improváveis, nas fantasias absurdas que ousava criar sozinha no quarto. Os olhos vivos, dois universos presos num mar denso e profundo.

Pensava: desconfio do improvável, tenho medo do impossível. Fiz promessas que nunca poderei cumprir. Tenho saudade do que eu não vivi, nostalgia de palavras que não foram ditas. Sou descontroladamente repentina. Estou feliz e de repente entro em um transe preocupante, os olhos abertos, fixos, trágicos, inócuos na escuridão. Hoje ele me perguntou no que penso, eu não sei o que pensar. Ah, minhas palavras... Elas são ásperas, o meu choro chega a ser preocupante. Minha vida? Na opinião de todos é boa o suficiente para que não haja uma única reclamação. Meus sonhos são impossíveis, meu gosto duvidoso. Minha alma é cheia de espinhos, as pessoas tem medo de mergulhar. Eu tenho medo de me entregar... Minhas convicções são erradas, a minha fé inadequada. As minhas palavras são vazias, minha voz é fraca e os meus complexos são inteiros. O meu calor não é suficiente, o meu tom poderia ser melhor. Meu carinho? Oco. Meus passos? De ninguém. Minha vida é simplesmente sem direção. Meus sentimentos são absurdos, complexos, amplificados ao extremo. Minha tristeza é drama, minha risada é forçada. Minha vida pura ilusão.

Sabe? Tenho andado de mãos com a solidão. Uma solidão acompanhada... Tenho muitas pessoas ao meu lado, mas poucas sabem realmente o que eu sinto. Quero um mar de águas límpidas, eu quero mergulhar mais fundo. Quero me sentir limpa dessa vida aterrorizante, desse poço sem fim. Minha alegria? Ah, essa anda escassa, fraca, sem cor.

Voltou-se ao mundo real. Olhou mais uma vez o reflexo de seus olhos no espelho e disse baixinho: Eu quero mergulhar mais fundo.