16 dezembro 2008

Dois estranhos



A vida é engraçada. São tantos enganos,tantos erros e tantas mentiras que podem separar duas pessoas.E foram todos esses desenganos que trataram de separá-los. Conheceram-se na escola, eram amigos, viviam grudados um ao outro até que um dia descobriram o amor na forma mais pura que se pode encontrar,o primeiro amor. Se olharam, as mãos se tocaram e os lábios finalmente se encontraram. Era um dor de barriga gostosa, um arrepio que tocava a alma,uma imensa felicidade que vinha por dentro e arrebatava cada órgão do corpo aos pouquinhos.Tinham pouca idade ela 12,ele 13.Eram crianças apesar de não se considerarem assim.Aliás ninguém nessa idade se considera criança,queremos mais é crescer,ter uma vida adulta e principalmente viver como um adulto.

E aos pouquinhos o amor deles foi crescendo,tomando um espaço cada dia maior na vida de ambos.Ela escrevia nas carteiras da escola seus nomes cruzados num enorme e gordo coração,ele que antes só pensava em jogar futebol deixava os amigos e a bola de lado para ficar ao seu lado no intervalo.Não eram namorados,continuavam sendo amigos.Amigos que se adoravam,apaixonados um pelo outro.Amigos que sentem borboletas voando na barriga toda vez que se viam.Amigos.

Até que um dia acabou o ginásio e ele teve que sair da escola onde havia crescido,saia rumo a um novo mundo.Ela não queria,ele também não,mas aconteceu.Tinha que acontecer.
Mantiveram contato por mais algum tempo até que ele que em pouco tempo havia se tornado escasso,se tornou nulo.Eles já não se falavam mais.

Ela
Passaram-se anos.
Ela namorou,desmanchou,namorou novamente e terminou.Levava uma vida sossegada,trabalhava e fazia faculdade.
Estava mais mulher,mais viva a cada dia.Cabelos escuros desmanchando sobre os ombros da mediana garota.
Era de manhã.Ela ia ao trabalho e por uma coincidência (ou não?) resolveu tomar um outro ônibus que seguia outra linha.Deu sinal.Entrou no ônibus,pagou o cobrador.Quando finalmente olhou para o interior do automóvel não pode acreditar.Era ele,ali,tão perto.
Há quantos anos não se viam? E as borboletas voltaram ao estomago, e a vida voltou a ser colorida.E as coisas voltaram a fazer sentido.
Pensou em se sentar ao seu lado e lhe perguntar da vida,como andavam as coisas.Mas e se ele nem se lembrasse mais dela?Talvez.
Pensou em lhe dar um abraço e um grande beijo nas bochechas.Porém , lembrou-se que ele não era mais seu amigo,ele agora era um desconhecido,um desconhecido que já fora essencial na sua vida,mas agora,apenas um desconhecido.
O olhava fixamente.Ele também a olhava.
Resolveu não cumprimentá-lo,sabe-se lá o porque.Sentou em um dos bancos e ali ficou.Emocionada com aquele momento que tantas e tantas vezes sonhou acontecer.


Ele
Ele cada dia mais voltado às festas e às mulheres.
Alto,magro,cabelos de um preto azulado,sobrancelhas grossas emoldurando os olhos pequeninos.Se tornara um homem atraente.
Era de manhã ele saia de uma festa que havia terminado tarde demais,voltava de ônibus sentado em um dos muitos bancos vagos.Ele a viu,sentiu o estomago embrulhar,e ficou abismado em saber que ela ainda tinha o mesmo poder sobre os seus sentimentos mesmo depois de tantos anos.
Sentado ali no ônibus pode ver a mulher da sua vida entrar e se sentar sem ao menos lhe cumprimentar.Num primeiro momento sentiu raiva ,por ela não ter nem apenas lhe ter dedicado um simples Oi.Mas e se ela havia se esquecido dele?
Ela estava tão linda,mais linda do que nunca.Quis correr e abraçá-la,quis matar-lhe de beijos ,quis voltar no tempo rumo a um passado feliz junto dela.Depois quis não existir e por fim quis não estar naquele ônibus.
Teve vergonha ,vergonha de não ter mais ligado,vergonha da vida que estava levando.
Pensou em se levantar,sair do ônibus e ir embora para sempre.Uma,duas,três vezes.
Não conseguia.Não podia.Não o fez.

As histórias juntas novamente
Chegava o ponto em que ela deveria descer,ela gostaria de não descer daquele ônibus nunca mais.Estava tão próxima daquele que era o seu primeiro e grande amor.Tão perto e tão longe.
Mas tomou coragem e se levantou,deu sinal de parada olhando para um outro lado e fingindo não o ver.Ela ia deixar definitivamente o passado para trás.Ele iria junto com aquele ônibus para sempre,estava certa disso.
O ônibus parou ,a porta se abriu.Desceu o primeiro degrau da escada de saída quando sentiu alguém pegando em sua mão.Era ele,era ele,era ele !Ele havia pegado na sua mão.

Ele olhou-a com seus pequeninos olhos negros que mais pareciam duas jabuticabas.
“-Não se lembra mais de mim ?”.
Desceram juntos as escadas.
“-Como eu me esqueceria de você ?Pensei que você é que não se lembrava mais de mim!
Foi por isso que não te cumprimentei.Desculpe.”

Sorriram.O sorriso de cumplicidade que no passado era tão cotidiano e que agora provocava uma angústia tão grande que chegava a ser patética.
Se olharam,os olhos se encontravam novamente,as mãos que haviam se tocado num passado distante agora voltavam a ser só uma ,entrelaçadas.
Se abraçaram perguntando-se como puderam ficar longe por tanto tempo .